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Expresso

E se houver acordo, sr. primeiro-ministro?

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Se há, nesta altura, alguma certeza é que não há certeza nenhuma. Os próximos dias são uma verdadeira incógnita. Mas o ‘não’ da Grécia já nos diz várias coisas: Os gregos estão fartos de austeridade. Estão dispostos a arriscar. O medo não venceu. Venceu a soberania. E os credores têm agora um gigantesco sarilho para resolver. A Europa começa hoje um novo tempo.

O problema é saber que tempo será esse. As próximas horas são dramáticas. A decisão do BCE vai dar um importante sinal: Os bancos gregos estão sem liquidez – a hipótese de um bail-in foi posta em cima da mesa – e se Draghi não abrir a torneira, o colapso será um facto consumado. Mas estará a Europa disposta e preparada para que tal aconteça? As filas nos multibanco e os velhos em apuros para receberem as suas pensões foram só o arranque de um filme que pode acabar muito pior. Depois da tragédia, o que virá?

Para os credores vai ser extremamente difícil negociar com quem fez a campanha pelo ‘não’. E com quem se comportou de forma errada, errática e em permanente campanha interna. Mas o povo grego decidiu. Tsipras revelou-se. Ganhou o país. E dá um importante sinal para voltar à mesa das negociações: Varoufakis sai. Era um obstáculo.

Deixar cair Atenas comporta demasiados riscos: O contágio desemboca em “águas desconhecidas.” O fantasma de uma nova crise está ao virar da esquina. E não esqueçamos que o falhanço do projecto do Euro é oxigénio para os extremismos. Da esquerda radical, à direita nacionalista. 

Os líderes europeus ainda estão meio atordoados com o que se passou. Fecharam-se em copas. E Passos Coelho fez o mesmo. Só falará depois da reunião de Merkel e de Hollande. À espera de um guião, o primeiro-ministro fez no entanto questão de ir adiantando que a “Grécia tem de pagar os empréstimos feitos em condições muito excepcionais.” A declaração é clara como água: As linhas vermelhas estão traçadas. Não pode haver filhos e enteados. Ou Portugal não é a Grécia. Ou o “não pode haver excepções” de Cavaco Silva. Mas nos cálculos de Passos há um que certamente já o atormenta. É que se a Europa ceder a Atenas – e sobretudo se incluir alguma cedência na questão da dívida -, o jogo pode virar e esse seria o cenário do embaraço. Passos teria de justificar porque não seguiu outro caminho em vez do bom aluno que quis “ir além da troika”.

Os credores não vão facilitar. E Passos Coelho também não. O futuro da Grécia e do euro é uma cartada decisiva para as legislativas. Aprendemos com os últimos meses que não há cenários definitivos. António Costa já está chamuscado, mas ainda pode conseguir reverter os danos do seu ziguezaguear. Quanto a Passos Coelho será interessante perceber como se vai safar deste “conto de crianças” que abanou com a Europa dos adultos.