Siga-nos

Perfil

Expresso

Como Sócrates tramou Costa

  • 333

Muito se tem falado sobre que impacto teria a saída de José Sócrates da prisão na vida política e em especial no PS. O que se passou esta semana mostra bem como o caso do ex-primeiro-ministro se impõe facilmente na agenda mediática. E como abafa o partido socialista.

Contam-me que António Costa “ficou furioso”. E não era para menos. No sábado, à saída da Convenção socialista, a notícia de Sócrates (a proposta da pulseira eletrónica) tornava-se central em todas as perguntas dos jornalistas. Costa tinha acabado de aprovar o programa (o do “rigor”) que o PS também quer que seja um virar página em relação ao passado socrático.

Com o caso do ex-PM a “poluir” a festa (outra vez), em algum PS lá voltaram a circular as teorias das “coincidências muito fortes”. Das perguntas: “Porque não o fizeram na segunda-feira?”. E dos ataques à Justiça: “Se não querem que se façam leituras deviam ter mais cuidado”. Cuidado? O mesmo se pode recomendar ao PS. No passado, o partido não se deu bem com teorias da cabala.

É que, na verdade, se se questionam os tempos da Justiça, também se deve fazê-lo em relação aos timings do ex-PM e dos seus advogados. A notificação do Ministério Público sobre o desagravamento da medida de coação chegou na sexta-feira, mas João Araújo só deu a notícia no sábado à porta de Évora e depois de ter reunido com o seu cliente. À mesma hora em Lisboa terminava a Convenção do PS. O choque entre Évora e o Coliseu foi frontal. E pelos vistos Sócrates não achou relevante que a notícia fosse adiada para um momento mais oportuno. Resultado: O PS de Costa foi atirado para os rodapés mediáticos.

Escrevi no dia da detenção do ex-PM que o caso ia ser tóxico para o PS. E Costa ainda ontem acusava o toque quando veio defender que não competia ao PS fazer a defesa de Sócrates e que era preciso “despoluir” a discussão. Atentem no verbo usado: despoluir. Só se despolui o que está sujo.

Até agora o líder socialista tem gerido bem o caso. O problema é que as águas que Costa tem conseguido separar, Sócrates insiste em misturar. E não ficará por aqui. A decisão de Carlos Alexandre de o manter em Évora pode parecer politicamente mais favorável ao PS. Mas não é. É simplesmente adiar um problema político.

Se agora o perigo de ter Sócrates em casa era motivo de alguma preocupação, pior será se, e repito o se, daqui a três meses, quando a medida de coação for revista, o ex-PM sair em liberdade. Estaremos em setembro, bem perto das eleições. E certamente não se discutirá outra coisa.

É neste perigoso tabuleiro que se joga este caso - e ainda falta conhecer a acusação (já passaram seis meses!) -, e uma coisa é certa, por mais motivado que possa estar com a chegada de Costa ao poder, Sócrates está em primeiro lugar mais preocupado consigo e com a sua defesa. E pelo que se tem percebido os interesses de ambos dificilmente se concertam.