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Expresso

A caminho da Constituinte

Traumas, tiros e cortes de luz. E a campanha vai a meio

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Povo-MFA. O Movimento das Forças Armadas pediu calma aos partidos no momento em que a violência chegou à campanha eleitoral

Arquivo A Capital

Já lá iam 13 dias de campanha eleitoral, quando a luta política começou a aquecer. O País assistiu aos primeiros confrontos diretos - e físicos - entre os principais adversários. Houve mesmo tiros, murros e pontapés. O MFA tomou posição. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

E ao 13º dia de campanha eleitoral, a poderosa 5ª divisão do MFA veio tentar pôr ordem na barraca. Em comunicado, divulgado a 13 de Abril de 1975, os militares responsáveis pela propaganda do novo regime fizeram o seu "ponto da situação" e prometeram "manter em vigor a ordem democrática e revolucionária".

Na verdade, no terreno, as coisas nem sempre corriam da melhor forma. Ou, nas palavras do MFA, "grande parte da população portuguesa está a ser traumatizada em resultado das palavras intempestivas e de alguns casos de violência física que se vêm registando".

Durante o fim de semana, choveram comícios e sessões de esclarecimento por todo o País. O PCP realizou uma Festa Popular, em Belém, que juntou "mais de cem mil pessoas", segundo o Diário de Lisboa. Soares e Zenha lideraram uma caravana socialista pelo Norte, que multiplicou comícios, "muitas vezes improvisados" entre o Porto e o Minho. O País aderia à novidade. Assistia ao primeiro debate eleitoral da história da sua tenra democracia. Mas nem sempre da melhor forma.  

Em Montalegre, os militantes do MDP/CDE ensaiavam uma entrada em território hostil. E os transmontanos responderam... a tiro. Em comunicado, o partido explicava com todo o pormenor que a caravana do MDP tinha sido alvo de uma "contramanifestação de elementos do PPD" que "munidos de armas de fogo, varapaus e estadulhos (leia-se pau para picar o gado) atingiram um activista do MDP/CDE". O comunicado, subscrito igualmente pelo PCP, é muito detalhado quanto aos ferimentos sofridos pelos militantes da esquerda. A posteridade ficou a saber que um deles sofreu "um tiro a curta distância na parte alta da coxa, atravessando-lhe a mesma de diante para trás". Um outro, identificado como "um elemento afecto ao PCP, com 74 anos de idade" e que compareceu no local para "recomendar calma, foi também atingido com um tiro numa perna, tendo ficado o projétil retido e logo a seguir extraído por um médico desta vila". 

Os comunistas conheciam já o que custava entrar a Norte do Douro. Um dia antes, em Gois  e Dornelas, no distrito de Braga, homens "armados de varapaus, enxadas e paus" impediram por duas vezes a realização de uma sessão de esclarecimento do candidato do PCP. E, perante a insistência dos comunistas em "dirigir-se à população", a cena voltou a repetir-se e "foram disparados vários tiros", enquanto se ouviam gritos de "queremos religião, não queremos o comunismo". Sem garantias de poderem fazer campanha eleitoral, o PCP exigia a "impugnação das eleições" naquelas duas freguesias. 

Galvão de Melo silenciado A intervenção do MFA, precisamente a meio da campanha eleitoral, visava "evitar que o incitamento e a prática da violência se convertam em processos de intervenção por parte de certos partidos". Mas, estava longe de ser uma mensagem apenas para protecção dos partidos de esquerda. Na verdade, o CDS também estava na mira de muitos partidos da esquerda revolucionária. No mesmo dia em que o MDP era travado a Norte, o CDS era travado em Viseu. Num comício com Adelino Amarado da Costa e com o general Galvão de Melo, houve um corte intencional de luz que deixou a cidade às escuras e o general sem hipótese de se fazer ouvir.  

Segundo o Diário de Lisboa, foi "um grupo de jovens não identificados" que "retirou os fusíveis da Central de Transformação e Distribuição dos Serviços Municipalizados" de Viseu, precisamente na altura em que o general e membro da Junta da Salvação Nacional começava a falar. Um ato "da reacção", classificou o general que teve de esperar - às escuras e em silêncio -  pelo regresso da electricidade. ´

No Porto, na mesma noite, os militantes do CDS que faziam pichagens nas paredes da cidade, foram os alvos da fúria dos esquerdistas radiciais. Activistas da Luar e dos GAAF (Grupos de Acção Antifascista), munidos de "matracas e ferros" lançaram uma autêntica caça ao homem do CDS pelas ruas da cidade. O Diário de Lisboa registou os "confrontos inevitáveis", que provocaram "danos em alguns carros estacionados" e, claro, "correrias, desforços físicos e retaliações". Leia-se: murros e pontapés. A campanha estava, mesmo, ao rubro.