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Termina hoje a campanha eleitoral

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Remate. Os jornais assinalam a entrada da campanha na sua reta final

Milhares de comícios e sessões de esclarecimentos depois, e com muitos milhões de cartazes colados nas paredes, mais os tempos de antena, os portugueses têm muita informação para saber por onde escolher. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

Chega ao fim a campanha para as eleições em que pela primeira vez na História de Portugal todos os cidadãos maiores de 18 anos, e na posse dos seus direitos cívicos, podem votar em liberdade. Pela primeira vez também, os partidos concorrentes podem apresentar sem qualquer constrangimento os seus argumentos e os seus candidatos.  

No último dia queimam-se, naturalmente, os últimos cartuchos. Os jornais registam o arranque da etapa derradeira. "A Capital" dá conta da atmosfera que se vive. "As verdadeiras formações políticas interessadas no ato eleitoral" - assim escreve o vespertino, com palavras escolhidas a dedo - "intensificam a sua atividade nestes últimos dias de campanha. Sucedem-se os comícios e as sessões de esclarecimento e as figuras mais representativas de cada um dos partidos entregam-se a autênticas 'maratonas' para participar no maior número possível de reuniões".  

O "Diário de Lisboa" indica as localidades onde se realizam "alguns grandes comícios", mas enquadra esta informação no crescendo da campanha, de "22 dias de maciça propaganda dos 12 partidos concorrentes e com um reforço notório de concentrações populares (estádios, pavilhões desportivos, praças de touros) no passado fim-de-semana".  

Eis alguns pontos do roteiro: CDS, na Guarda, com Galvão de Melo; MES, no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, no Pavilhão dos Desportos (hoje o degradado Pavilhão Carlos Lopes), com Rossana Rossanda; PCP, igualmente em Lisboa, no Estádio 1º de Maio, com Álvaro Cunhal; PPD, em Algés, com Francisco Pinto Balsemão, PS, em Braga, com Salgado Zenha, e na Damaia, com Sottomayor Cardia.  

Se os comícios realizados com total liberdade (descontando os casos de boicotes) e os cartazes afixados nas ruas constituem uma novidade, mais inédito ainda para os portugueses são os tempos de antena. Na televisão, cabe ao CDS encerrar a "propaganda". Nos canais de rádio,  o sorteio dita o PPM a fechar o tempo de antena na Emissora Nacional, o PCP no Rádio Clube Português e o MDP na Rádio Renascença.  

Na rádio e na TV todos os partidos estão em pé de igualdade, e o mesmo acontece muitas vezes na imprensa. Num rescaldo da campanha, "A Capital" pede a cada uma das forças candidatas que escreva o seu próprio texto de balanço. 

Equilíbrio. Capa da revista “Flama” com os 12 partidos concorrente às eleições para Constituinte. O tratamento dos órgãos de comunicação social é medido a régua e esquadro

Equilíbrio. Capa da revista “Flama” com os 12 partidos concorrente às eleições para Constituinte. O tratamento dos órgãos de comunicação social é medido a régua e esquadro

É só na entrada do artigo que se vislumbra o tom crítico do vespertino. "Desse conjunto de opiniões resultam, como é evidente, posições bastante diferentes, mesmo opostas, mas que podem dividir-se em duas grandes linhas: a das organizações políticas interessadas nas eleições do ponto de vista da obtenção de votos;e a dos movimentos que afirmam ter participado nas campanhas apenas para denunciar as eleições, aproveitando as facilidades de acesso aos orgãos de comunicação social". 

O diário adverte que "o estilo dos balanços é, portanto, bastante diferente", mas de qualquer modo "corresponde, em todos os casos, àquilo a que cada partido habituou o público durante os 22 dias da campanha eleitoral". O que segue é, assim, cada partido a ser juiz em causa própria, com o jornal a homologar as sentenças (por odem alfabética dos partidos, respeitando a sequência em voga).

CDS: respeitar as regras do jogo democrático; FEC (m-l): objetivos "perfeitamente conseguidos"; FSP: nunca pedimos votos; LCI: correspondidas as iniciativas dos trabalhadores; MDP/CDE: conquistar portugueses pela democracia; MES: vigilância popular da Constituinte; PCP: nem eleiçoeiros, nem demagógicos; PPD: análise do comportamento e da imprensa; PPM: centenas de sessões sem incidentes; PS: povo quer e sabe votar; PUP: desmascaramento das eleições burguesas; e UDP: eleger deputados revolucionários.  

Expresso desmonta relatório do 11 de março  No último dia de campanha, a direção do Expresso rebate, em conferência de imprensa, alegações do relatório oficial sobre a intentona do 11 de março, divulgado na véspera. O documento reproduz três artigos do jornal, nomeadamente uma entrevista a António de Spínola (publicada a 4 de janeiro), e induz a leitura de que o Expresso teria favorecido a imagem do general.  

Francisco Pinto Balsemão, o diretor, faz acompanhar-se pelos subdiretores, Marcelo Rebelo de Sousa e Augusto de Carvalho, estando também presentes outros jornalistas. Balsemão diz ser necessário "desmistificar a campanha em curso" contra o jornal, patente na "intensificação de ataques [ao Expresso, oriundos] de várias origens, desde órgãos de partidos políticos a elementos do Conselho da Revolução".  

O também candidato do PPD à Constituinte lembra que desde os tempos em Spínola foi Presidente da República, o Expresso foi "o primeiro - e talvez o único - jornal a denunciar aquilo a que chamamos o bonapartismo spinolista".  

Já Augusto de Carvalho, contestando afirmações segundo as quais o Expresso provocaria "divisões nas Forças Armadas", afirma: "Se as Forças Armadas têm de saber o que pensa o Povo, também o Povo tem de saber o que pensam as Forças Armadas".

Nesse sentido, prossegue, "tem sido intenção do Expresso radiografar o MFA e mostrá-lo ao Povo. No dia em que isso não for possível, teremos de dizer que o nosso povo não pode ser informado".  

Balsemão diz a dado passo: "Entendemos que o jornalismo não se faz com tesoura e cola, nem com reprodução de comunicados".  

Faltam dois dias para Portugal ir a votos. Pela primeira em total liberdade, com os mesmos direitos para todos.  

Amanhã é dia de reflexão.