Siga-nos

Perfil

Expresso

A caminho da Constituinte

Reforço do peso dos militares

  • 333

Aliança. A poucos dias das eleições, os militares consolidam a sua presença na cena política

O relatório do 11 de março conhece a luz do dia. E o boletim do MFA sinaliza melhor o que o Povo deve fazer. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

A generalidade dos jornais divulga o relatório sobre a intentona do 11 de março, antecipando-se à data prevista. "Desmascarado o envolvimento de Spínola", titula o Diário Popular. 

O "Diário de Lisboa" opta por fazê-lo num suplemento especial, com uma edição fac-similada do "relatório preliminar da intentona contra-revolucionária do 11 de março". O vespertino esclarece que as rotativas só giraram após a "autorização do Estado-Maior das Forças Armadas". 

Noutro plano da afirmação dos militares na cena política, começa hoje a ser distribuído o nº 15 do boletim informativo das Forças Armadas.

A três dias das eleições, a publicação é, por isso, muitíssimo mais do que um folheto de caserna. Na atmosfera que se vive, dá sinais claros a todo país de onde (e para onde) sopra o vento.

No texto "Reflexões sobre o processo revolucionário", escreve-se: "Nesta fase revolucionária, que aponta já ao socialismo, ninguém pode ficar passivo, a esperar que as soluções lhe caiam nas mãos como benesse divina". Mais adiante, é pedido: "Temos de nos convencer que os dois ou três próximos anos serão de luta e de privações, até que a Revolução fique consolidada". 

A inevitabilidade da aliança Povo/MFA fica consagrada: "Se às Forças Armadas cabe a defesa militar contra o inimigo armado, interno ou externo, a todo o Português democrático e patriota cabe a defesa psicológica em todos os outros setores".

PPD fecha campanha em Lisboa Com a contagem decrescente para as eleições, os maiores partidos despedem-se com grandes sessões das principais cidades do país. O PPD escolhe o Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, "completamente cheio de uma multidão que empunhava bandeiras e dísticos", relata o DL. 

Mário Pinto, um dos primeiros oradores, diz que as "eleições são, em primeiro lugar e acima de tudo, a forma mais autêntica pela qual o povo fala e ordena".

A penúltima intervenção cabe a Francisco Pinto Balsemão. "A fase da História de Portugal que temos o privilégio - digo bem o privilégio - de viver será talvez pré-democrática, mas é sem dúvida revolucionária", diz. Balsemão, de quem algumas intervenções durante a campanha foram consideradas demasiado à esquerda por elementos do seu partido, acrescenta: "Há que encarar a revolução convicto de que se está a intervir na vida portuguesa do presente e do futuro, confiante nos resultados a obter, certo de que a sociedade portuguesa não pode ser profundamente revolvida senão por via revolucionária". 

No Porto, o MDP/CDE escolhe o Palácio de Cristal e alerta para os perigos da social-democracia. "Em Portugal, (...) os pequenos e médios industriais e comerciantes esquecem-se que a social-democracia só os deixará sobreviver enquanto interessam aos grandes potentados (...). As multinacionais suecas e alemãs vêm instalar-se entre nós para esmagar os mais pequenos e explorar a mão de obra barata", afirma o líder do partido, José Manuel Tengarrinha. O orador é interrompido frequentemente pela assistência, que grita: "A social-democracia só interessa à grande burguesia". 

O frango na fogueira da Revolução Na sequência de uma resolução do Conselho de Ministros de 15 de abril, os jornais dão desenvolvimentos sobre um assunto de grande interesse para a opinião pública: o preço do frango. 

É o caso do Diário de Lisboa de hoje, recordando que "o preço da carne de frango ficará sujeito ao regime de preços máximos". O vespertino informa que "com vista à harmonização dos preços", a Direção-Geral de Preços "está a realizar o estudo do preço máximo da carne de frango e respetivas margens de comercialização".

Para se "obstar à especulação", escreve o DL, "caso a população detete agravamento de preços nos seus fornecedores habituais, deve comunicar imediatamente à Fiscalização económica". 

Faltam três dias para Portugal ir a votos.