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Expresso

A caminho da Constituinte

PS e PCP acentuam clivagens

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Relíquia. Cartaz de uma das raras iniciativas conjuntas entre PCP e PS, quatro meses após a Revolução. Um ano depois desta, à beira das eleições, a unidade já está rasgada

Chega ao fim o último fim de semana de campanha. Os campos estão cada vez mais delimitados pelos principais partidos. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

É domingo. Os partidos têm o último dia de fim de semana para convencer os portugueses da bondade das suas propostas, que serão sufragadas na sexta-feira, dia 25, a partir deste ano feriado nacional. 

Os comícios do PS, em Lisboa (no Estádio 1º de Maio), e do PCP, no Porto (no Estádio das Antas), são as duas maiores manifestações de massas do último grande fôlego da campanha. 

O "Diário de Lisboa" destacaria as duas iniciativas. A do PS, com um desfile a terminar no Rossio,  "reuniu uma multidão calculada em cerca de duzentas mil pessoas", a iniciativa "mais concorrida desde o início da campanha eleitoral". 

Numa síntese das atividades de fim de semana (o jornal não se publica ao domingo, pelo que na edição de segunda-feira faz o balanço das iniciativas dos dois anteriores), o "DL" fala, na manchete, de uma "poderosa afirmação popular". 

Já "A Capital" escreve em letras garrafais que "campanha eleitoral atinge ponto mais alto no fim-de-semana", caracterizado por "um forte recrudescimento da atividade dos partidos".

Segundo o jornal, "de uma forma geral, todas as reuniões decorreram em clima de entusiasmo, mas em perfeita ordem, abrindo-se duas lamentáveis exceções, em Guimarães e Aveiro". Na primeira cidade, houve 20 feridos, nos confrontos (e tiroteio) em redor de um comício do CDS. Noutros pontos do Minho (Famalicão e Riba de Ave, por exemplo), é o PCP que denuncia os ataques de elementos do CDS e do PPD. Mas nos dias quentes de abril de 1975 os conflitos têm agressores e agredidos que vão mudando de posição, consoante a região do país, numa atmosfera em que as versões do mesmo acontecimento raramente coincidem. 

Em Lisboa, um dos principais dirigentes do PS, Francisco Salgado Zenha (ministro da Justiça do governo provisório), ao intervir no comício, considera-o a "maior jornada de unidade e confraternização que se viu em Portugal, superior ao próprio 1º de Maio de 1974".

Soares e a recusa de quatro socialismos Os discursos socialistas são encerrados por Mário Soares. "Não temos o projeto de copiar experiências alheias, de introduzir em Portugal um socialismo à russa, à chinesa, à sueca ou à cubana. Queremos um socialismo à portuguesa". E prossegue: "Lutamos por um poder que pertença de facto aos trabalhadores, e não aos burocratas que falam em nome dos trabalhadores". 

Variações do que afirmara ao longo do fim de semana, no périplo feito pelo Sul do país (Beja, Évora e Setúbal), zonas onde se antevê uma forte implantação do PCP. "Não queremos o imperialismo americano, como também não queremos nenhum outro. Estamos a fazer um caminho original, que está a ser seguido em todo o mundo", garante Soares. 

As palavras de Soares têm como contraponto o discurso feito na véspera por Álvaro Cunhal, no comício do Porto. Se é difícil não observar no líder socialista um conjunto de indiretas ao PCP, inevitável é ver nas palavras do secretário-geral comunista referências diretas ao PS. Os dois partidos e os dois homens estão cada vez mais afastados.

Insanável! Soares e Cunhal, no célebre debate televisivo de novembro de 1975, ponto mais notório da clivagem entre ambos. Mas já na campanha se cavava o fosso

Insanável! Soares e Cunhal, no célebre debate televisivo de novembro de 1975, ponto mais notório da clivagem entre ambos. Mas já na campanha se cavava o fosso

Arquivo A Capital/IP

A poucos dias da ida a votos, Cunhal faz uma clara separação de águas em relação a dois dos partidos da coligação governamental, mas começa por visar o PPD. "Fizemos e continuamos fazendo sérias reservas a que continuem num Governo que se propõe construir uma sociedade democrática a caminho do socialismo partidos que mostram pelos seus atos ligarem-se à reação e não querem acompanhar o processo revolucionário". O alvo é o PPD (hoje PSD), que "em numerosos casos tem nas suas estruturas os velhos fascistas".

Cunhal marca o terreno: "É tempo de parar e se o PPD quer justificar a sua presença no Governo tem de demonstrar pelos seus atos que se liga às forças democráticas contra a reação". E, prossegue, "de certa forma poderemos dizer o mesmo em relação ao Partido Socialista", que Cunhal gostaria de ver moldado mais á sua medida. "Veríamos com satisfação a existência de um tal forte Partido Socialista lutando lado a lado com o Partido Comunista". 

Termina hoje o congresso dos Conselhos Revolucionários de Trabalhadores, Soldados e Marinheiros, afetos ao PRP (Partido Revolucionário do Proletariado). Estão representadas 165 empresas e 26 unidades militares. 

Faltam cinco dias para Portugal ir a votos.