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A caminho da Constituinte

"Portugal não será o Chile da Europa", grita-se em Roma

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Combate. Tomada do palácio presidencial chileno, por forças de Pinochet, a 6 de setembro de 1973: ano e meio depois, italianos saem em defesa da Revolução portuguesa

Reuters

Revolucionários italianos e de outras nacionalidades mobilizam-se para evitar em Portugal algo de parecido com o golpe de Pinochet. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

Começa hoje o último fim de semana de campanha. Num país meio século submetido a uma ditadura, sem qualquer hábito democrático, a (in)formação é crucial para o êxito do ato eleitoral. Por isso, a RTP exibe hoje à noite, pelas 21h15m, um filme destinado aos membros das mesas e das assembleias ou secções de voto, no qual se "exemplificam as operações a cumprir pelos membros da mesa após o encerramento da votação no dia da eleição".

Em Roma, cidade onde na véspera a Rádio Vaticano metera uma colherada na política portuguesa, há hoje uma iniciativa de sentido diametralmente oposto. Convocada por uma das mais fortes organizações da esquerda italiana, a "Lotta Continua", realiza-se a "primeira grande manifestação operária" no estrangeiro em "apoio e defesa" do processo revolucionário português.

A palavra de ordem da iniciativa, convocada para travar ameaças à revolução portuguesa, é "Portugal não será o Chile da Europa". O caráter internacionalista do desfile colocaria também a descolonização na agenda dos manifestantes. "Um grande cortejo cheio de bandeiras vermelhas e dos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas atravessou o centro da capital italiana à hora de 'ponta'", escreverá depois o DL, com destaque na primeira página.

"Correspondendo ao pelo lançado pela 'Lotta Continua' e secundado por organismos estudantis e operários, comités anti-imperialistas e várias individualidades, mais de 60 mil pessoas participaram no grande ato de solidariedade com o processo revolucionário português, com o MPLA e contra o imperialismo e  a reação", acrescenta depois o vespertino.  

"Várias centenas de soldados italianos, envergando os seus uniformes, mas com os rostos tapados por lenços vermelhos", tomam parte na manifestação, informa por seu lado "A Capital".

O balanço do Expresso Na última edição antes da ida a votos, o Expresso dedica, como os restantes órgãos de comunicação social, o mesmo espaço a cada um dos 12 partidos concorrentes.

Mas cumprindo o seu papel de semanário, fá-lo com um texto eminentemente analítico. Nele, considera o PCP "a melhor organização tática" das 12 forças concorrentes, com capacidade para realizar "centenas de sessões diárias de propaganda eleitoral", tendo só numa semana, em Lisboa, por duas vezes, juntado "largas dezenas de milhar de pessoas" em Lisboa.

Nesse mesmo dia, no Porto, o PCP parece dar razão à avaliação do jornal. No Estádio das Antas, "organizou o seu maior comício no Norte do País", numa "grande demonstração de força", escreveria mais tarde "Diário de Lisboa".

Em editorial, com o título "Eleições à vista", o Expresso escreve que "à medida que se aproxima o 25 de Abril de 1975, adensa-se o ambiente em Portugal".

"Por um lado, alguns elementos do MFA insistem em atacar os partidos, em descrer da capacidade de discernimento dos eleitores, em minimizar as eleições, em propor o voto em branco. Por outro, os últimos dias de campanha implicam as apoteoses dos vários partidos, ?[que] provocam claramente os contrastes e as contradições, o exacerbar dos ódios e das paixões, a irreprimível premência da caça ao voto".

De seguida, o editorial coloca em perspetiva o que resta de campanha: "É neste clima algo confuso que os portugueses se preparam para votar. O seu voto destina-se a eleger deputados que vão redigir uma Constituição que em boa parte já se encontra definida, através do pacto entre o MFA e seis partidos. Mas o modo como votarem revelará também as opções de fundo sobre a

Constituição do Portugal novo. Daí os receios e as pressões, as promessas e as intimidações, os prenúncios e desmentidos de golpes e contragolpes, nesta semana decisiva".

Revolução? Siga a Marinha A Assembleia da Armada, num plenário em que participam 287 oficiais, sargentos e praças, realizada na Escola Naval, aprova hoje uma moção em que defende a passagem do modo de produção capitalista para coletivização dos meios de produção e a construção de um sistema pluripartidário para garantir a construção do socialismo". A Marinha vem assim reafirmar o "caráter socialista" da revolução portuguesa.

Em Benavente, um apoio de peso à Reforma Agrária é dado pelo PPM, pela voz de Gonçalo Ribeiro Telles, um especialista em solos. O arquiteto paisagista defende, por exemplo, a "imediata nacionalização da Companhia das Lezírias". No entanto, tem uma oposição de fundo ao modelo decretado dias antes pelo Conselho de Ministros, que decidira "expropriar, no sul do país, as propriedades de sequeiro de área superior a 500 hectares e as propriedades de regadio de área superior a 50 hectares".

Faltam seis dias para Portugal ir a votos.