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Expresso

A caminho da Constituinte

Nasce um jornal no meio da campanha

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Novidade. “Jornal Novo”: água fria na febre da Revolução

Os ecos das manifestações a favor das nacionalizações ainda estão nos jornais, no dia em que chega às bancas um novo vespertino, o "Jornal Novo". É  o primeiro periódico a nascer após o 25 de Abril de 1974. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

Num dia de campanha eleitoral em que a vida política ainda é marcada pelo anúncio das nacionalizações, e pela iminência da passagem de mais setores para a propriedade do Estado, começa a publicar-se um novo jornal, o primeiro de âmbito nacional a surgir após o fim do fascismo. É o "Jornal Novo", dirigido por Artur Portela Filho.

No processo revolucionário em curso (PREC), que vai aquecendo de dia para dia, a equação que suporta o "Jornal Novo" é inovadora (e de certo modo contra a corrente). O título é financiado pela Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), a estrutura patronal mais importante da época. A redação integra jornalistas e tem colaboradores insusceptíveis de serem colocados à direita do espectro político, sendo antes figuras moderadas no âmbito do PREC.

José Sasportes (chefe de redação), Mário Mesquita, Diogo Pires Aurélio, António Mega Ferreira e Mário Bettencourt Resendes são alguns dos jornalistas. No primeiro número, há chamada à capa de textos de dois colaboradores: Vitorino Magalhães Godinho e Eduardo Lourenço.

Uma "via socializante" numa "vocação socialista" O estatuto editorial assume que o jornal se propõe "participar na construção da democracia política e económica, pluralista, de sentido socializante, através de uma informação completa e crítica".

Intervenção. O “Jornal Novo”, dirigido por Artrur Portela Filho (na imagem, em 1976), chega às bancas a uma semana das eleições

Intervenção. O “Jornal Novo”, dirigido por Artrur Portela Filho (na imagem, em 1976), chega às bancas a uma semana das eleições

Arquivo A Capital/IP

Mesmo sendo uma lufada de contenção na efervescência revolucionária, o "Jornal Novo" perfilha, à sua maneira, o ideário da época. "Porque cremos que a via socializante é a via mais eficaz, e mais rápida, para a construção de uma sociedade livre, justa e próspera, 'Jornal Novo' é um jornal de vocação socialista", escreve Artur Portela Filho na primeira página da primeira edição.

No texto há tanto da inconfundível marca da pena do autor quanto um apelo à serenidade nos dias que correm: "Para 'Jornal Novo', lutar não é destruir, é criar". Mais adiante, escreve Portela Filho: "'Jornal Novo' toma posições, não impõe imposições; 'Jornal Novo' dialoga, não monologa". Uma prosa clara na asserção e óbvia nos recados a outros intervenientes das vidas jornalística e política.

Nacionalizações continuam na crista da onda Mais do que nos comícios de cada um dos partidos que apoiam o pacote de nacionalizações anunciado por Vasco Gonçalves, é numa iniciativa conjunta em Lisboa (além de outras de idêntica natureza em diferentes pontos do país) que é expresso o entusiasmo com as medidas.

"A Capital" e o "Diário de Lisboa", jornais vespertinos, dão hoje grande destaque na primeira página ao comício-manifestação da noite anterior. A iniciativa partiu do PCP e do MDP/CDE, tendo a ela aderido o MES, FSP e Intersindical, e mais tarde a LCI e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (este último não concorre às eleições).

"Mais nacionalizações, trabalhadores aclamam disposições revolucionárias", titula a "A Capital". O jornal acrescenta que está por horas (remetendo para uma reunião do Conselho da Revolução a realizar durante a tarde) "a nacionalização ou, pelo menos, um estreito controlo estatal, da produção de adubos". 

Apoio. A manifestação, em defesa das nacionalizações, convocada por partidos de esquerda (sem o PS), enche o largo frente à Assembleia da República

Apoio. A manifestação, em defesa das nacionalizações, convocada por partidos de esquerda (sem o PS), enche o largo frente à Assembleia da República

Arquivo A Capital/IP

O vespertino suporta o texto numa fotografia da manifestação da véspera, que passou frente ao Parlamento e terminou junto à residência oficial do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves. "Cem mil pessoas, do Rossio a S. Bento", informa por sua vez o "Diário de Lisboa", sob um destacado antetítulo: "Em marcha para o socialismo".A iniciativa partiu do PCP e do MDP/CDE, tendo a ela aderido o MES, FSP e Intersindical, e mais tarde a LCI e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (este último não concorre às eleições).

Palavras de ordem em S. Bento vão vincando algumas diferenças em sedimentação no espetro partidário: "Onde estão o PS e o PPD, que a gente não os vê?", gritaram os manifestantes.

No terreno, pelo país fora, vários partidos vão definindo as suas perspetivas sobre as nacionalizações. O PPD, por exemplo, diz (segundo notícia de "A Capital") ter o propósito de esclarecer "todas as implicações do problema, nomeadamente a demarcação do campo de ação reconhecido à iniciativa privada, a gestão das empresas nacionalizadas e a indemnização dos detentores de participações sociais respetivas".

Se esta preocupação pode ser lida como uma maior atenção ao capital, o fator trabalho não é esquecido. "Se os trabalhadores das empresas nacionalizadas não participarem ativamente na sua gestão, correm o risco de o serem [sic] pelas cúpulas dos partidos políticos que tomarem a dianteira e o farão no seu próprio interesse", diz Marcelo Rebelo de Sousa, numa sessão de esclarecimento com trabalhadores da companhia de seguros Tranquilidade.

Faltam oito dias para Portugal ir a votos.