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Expresso

A caminho da Constituinte

Nacionalizações 'engolem' campanha

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GOVERNO Vasco Gonçalves considerou um “momento histórico” o Conselho de Ministros extraordinário que decidiu as nacionalizações

Arquivo A Capital

Foram precisas nove horas de reunião para os ministros do IV Governo provisório decidirem privatizar 14 empresas de eletricidade, mas também siderurgias, companhias de navegação e ainda a TAP. A campanha eleitoral ficou para segundo plano.

O assunto mereceu destaque em todas as primeiras páginas, com direito a manchetes que rasgaram os jornais com o assunto do dia: o Governo de Vasco Gonçalves deu o pontapé de saída para o programa de nacionalizações dos sectores básicos da economia e arrancou com o programa da reforma agrária. A decisão precisou de nove horas para ser tomada, mas, antes mesmo do Conselho de Ministros encerrar os trabalhos, o primeiro ministro fez um pequeno intervalo para anunciar - na televisão e na rádio - que se vivia "um momento histórico".

"Tudo isto vem alterar o sentido da economia portuguesa. Agora já não oferece dúvidas qual o caminho seguido", disse. A lista de empresas a passarem para o Estado é enorme. De uma assentada, foram 14 empresas de produção, transporte e distribuição de eletricidade a serem nacionalizadas. A que se juntaram a Sacor, a Petrosul, a Sonap, a Cidla, as companhias de navegação CNN e CTM e a transportadora aérea, TAP. "Estas são as nacionalizações imediatas, pois outras se lhe seguirão", garantia o "Diário de Lisboa", na altura dirigido por Ruella Ramos e com o escritor José Cardoso Pires como diretor adjunto.  

O tempo era de euforia revolucionária e o Governo prometia continuar a mudar a economia portuguesa, admitindo alargar as nacionalizações à Siderurgia, às empresas de transportes de Lisboa e Porto, aos caminhos de ferro, aos correios, aos adubos. E, claro, dando o pontapé de saída para as ocupações de terra no Alentejo, com o programa de reforma agrária que - "desde já" - extinguia as coutadas e admitia a "expropriação de propriedades de sequeiro de área superior a 500 hectares" ou de "propriedades rústicas irrigadas de área superior a 50 hectares".

O modelo seguia ipsis verbis os ditames anunciados poucos dias antes pelo Conselho da Revolução, que queria "que o caminho para o socialismo" não fosse feito "em desordem" e defendia que fossem tomadas garantias de mudanças económicas capazes de assegurar "o pleno emprego" e a melhoria da qualidade de vida dos portugueses.

Os partidos da coligação governamental - PCP, MDP e PS - apoiaram com entusiasmo as medidas aprovadas em Conselho de Ministros. Tal como Vasco Gonçalves, também Mário Soares e o PS classificaram de "histórica decisão" a nacionalização das empresas, considerando que isso poderia "contribuir decisivamente para a resolução dos problemas fundamentais do povo português".

Quanto aos comunistas, diziam, pela voz de Carlos Aboim Inglês: "é preciso, agora, que os trabalhadores segurem bem as grandes ferramentas que lhes foram colocadas nas mãos pelo Conselho da Revolução e pelo Governo e que são o fruto da sua luta durante longos anos". Já o MDP congratulou-se com o facto de "as medidas tomadas atingirem duramente o poder económico que era sustentáculo do Governo fascista". 

Na verdade, neste dia, a campanha eleitoral ficou para segundo plano. A agenda política não podia ter sido mais completa com as iniciativas do Governo de Vasco Gonçalves.