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Expresso

A caminho da Constituinte

Juventude Operária Católica contra o Vaticano e o MFA

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Os setores católicos mais progressistas entram no jogo da campanha, em desobediência ao Vaticano e ao episcopado português. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

A Juventude Operária Católica (JOC) insurge-se, em termos veementes, contra posições da Igreja Católica portuguesa e, especialmente, da Santa Sé, que haviam dado indicações de voto. 

Mantendo a firmeza usada durante o fascismo, em que era a mais combativa organização de leigos católicos (com posições de independência face à hierarquia eclesiástica), a JOC repudia "as orientações dadas pela Rádio Vaticano e outras entidades da Igreja, que são entendidas no sentido de levar os católicos portugueses a levar em partidos que representam os interesses daqueles que sempre os têm explorado". 

A JOC denuncia, assim, "coações e ingerências" de entidades da Igreja no processo eleitoral. E se estas haviam usado alguma dissimulação na forma como indicaram aos fiéis o campo a escolher (ou a evitar) para meter a cruzinha do voto, a organização pela qual passaram muitos católicos progressistas deixa a sua mensagem sem rodeios: "É aos trabalhadores que compete decidir o seu futuro". E a "luta dos trabalhadores", prossegue, "aponta para construção de uma sociedade em que não haja explorados nem exploradores". Para a JOC, "uma sociedade deste tipo","aproxima-se da "mensagem e da prática dos primeiros cristãos, ao contrário de qualquer modelo capitalista ou neocapitalista. A Igreja de Jesus deve ser a Igreja dos pobres e oprimidos". 

A JOC critica também a recomendação do MFA, de apelo ao "voto em branco" a todos os indecisos. Hoje mesmo, numa sessão de esclarecimento realizada nas instalações do Automóvel Clube de Portugal, a orientação é repetida.

Para a JOC, "é indesculpável nesta altura o uso do voto em branco, pois significa, para quem o usar, uma triste incapacidade de se decidir. Dessa atitude aproveitarão manifestamente partidos minoritários com o risco de as eleições não exprimirem uma real vontade popular".

Relatório do 11 de março na calha "A Capital" noticia que a divulgação do relatório oficial sobre o 11 de março será feita dentro de dois dias, a 23 de abril (no último dia da campanha e na antevéspera das eleições, portanto).

Um partido que voltou ao Governo após o 11 de Março é o MDP/CDE. Num comício em Lisboa, no Teatro Adóque, Daniel Cabrita proclama a adesão aos ventos que sopram em Portugal desde o golpe falhado de Spínola. "A partir de 11 de março, houve de facto em Portugal uma viragem à esquerda. O MDP/CDE regressou ao Governo e, como partido revolucionário que é, continuará com atos, e não com palavras, a sua linha política". Cabrita, candidato a deputado por Lisboa, afirma que "os empregados das empresas nacionalizadas são neste momento a vanguarda dos trabalhadores portugueses". 

Um dos muitos incidentes que pontuam a campanha eleitoral ocorre em Braga. "Prolongados recontros", escreve o DL, agitam a cidade, impedindo a realização de um comício do CDS. O balanço é de nove feridos, sete dos quais com causas conhecidas: "Três à pedrada, uma à navalhada, um outro à paulada, um ainda a soco e o último à garrafada". Podia ter sido pior: só "rajadas espaçadas, disparadas por forças do Copcon do Porto, dissuadiram os manifestantes anti-CDS". 

Poucas horas antes, numa conferência de imprensa realizada na Fundação Gulbenkian, o ministro do Planeamento e Coordenação Económica, Mário Murteira, faz a jornalistas nacionais e estrangeiros um ponto da situação da vida nacional: "Chegou-se ao termo de um processo em que o essencial do antigo esquema económico já foi destruído e, nesta fase, o que interessa é reconstruir, agora com um sinal positivo: reconstruir a economia nitidamente com um caminho apontado pela instância política". 

Faltam quatro dias para Portugal ir a votos.