Siga-nos

Perfil

Expresso

A caminho da Constituinte

Expresso faz o retrato do candidato ideal

  • 333

Contraste. Ao discurso político pesado contrapõem-se raríssimos exemplos de humor (como é o caso deste cartoon do Expresso)

Ao mesmo tempo que o Conselho da Revolução acelera as nacionalizações, o sentido de humor é um bem escasso na política portuguesa e nas palavras dos políticos.  (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

É um sábado, entra-se no segundo fim de semana de campanha, e como é sábado o Expresso está nas bancas. O jornal, como faria ao longo de todo o período eleitoral, abre as suas páginas à opinião de jornalistas estrangeiros que acompanham a atualidade portuguesa. "Para dar aos nossos leitores um ponto de vista de quem chega, de quem aprecia os acontecimentos a partir de ângulos e experiências diferentes dos que cá vivem e cá escrevem".

Peter Watson, do semanário britânico "The Sunday Times, conta a sua experiência do "primeiro comício político" a que assistiu em Portugal. Várias coisas o espantaram. Uma delas: "Ao longo de sete intervenções, nem uma só graça aflorou, daí resultando que nem uma só gargalhada se fizesse ouvir durante as duas horas e tal de sessão".

É assim a vida política (e, como tal, a imagem dela projetada pela comunicação social) em Portugal em 1975: muito animada, efervescente mesmo (muitas vezes a descambar na violência), mas completamente cinzenta.

Por isso, só pelo desenho é que alguma graça aflora. Na mesma página onde está o texto de Peter Watson, António desmonta o candidato ideal. O facto de alguns traços do retratado terem evidentes semelhanças com pelo menos dois políticos de primeira linha (nas sobrancelhas e no penteado) torna o quadro ainda mais irreverente.

Entre os vários requisitos, o "candidato ideal" deve, pela pena do cartoonista (desde há meses a colaborar com o Expresso, onde hoje, mais de 40 anos passados, ainda se mantém), exibir um "olhar garantindo a firme defesa do processo revolucionário em curso e a unidade Povo/MFA; ter um "corte de cabelo tranquilizante para investidores estrangeiros"; ou usar a "camisa aberta, símbolo de unidade de todas as forças democráticas". O meneio do "punho (discretamente) fechado" também dá muito jeito por estes dias.

FEC (m-l) suspensa na rádio e na TV Quem está pouco para graças é o Conselho da Revolução. A partir de hoje, e durante cinco dias, está suspensa a propaganda da Frente Eleitoral Comunista (Marxista-Leninista), a FEC (m-l), na rádio e na televisão.

Após relato feito pela Comissão Nacional de Eleições, que analisou tempos de antena daquele partido, o Conselho da Revolução decidiu aplicar aquela pena à FEC (m-l), devido aos "ataques" feitos "várias vezes" ao "MFA e à estrutura das Forças Armadas, com o nítido intuito de provocar a confusão e a indisciplina".

No mesmo dia em que o CR pune a FEC (m-l), este partido realiza um comício na Academia Recreativa da Ajuda, em Lisboa. Na sessão, um dos oradores diz, segundo o relato de "A Capital", que "será necessário separar", no seio das Forças Armadas, os elementos burgueses que "não podem conduzir à derrocada do fascismo" dos militares verdadeiramente progressistas.

Os candidatos da FEC (m-l) dão a cara, mas disfarçam não o nome (continuando a seguir a reportagem do vespertino). "A mesa da sessão foi ocupada por membros (...) que apenas se identificaram como sendo José, candidato pela emigração, Abílio, candidato por Lisboa, António, representante da revista Spartacus (...), Carlos, candidato por Lisboa, e Filipe, também candidato por Lisboa".

Nacionalizações em marcha Na mesma reunião em que suspendeu a FEC (m-l), cujas conclusões só hoje são conhecidas, o Conselho da Revolução tomou outra decisões com menor impacto na campanha eleitoral, mas muito mais determinantes para o futuro do país.

Entre as "orientações gerais" para as "medidas económicas de emergência", a executar num "breve prazo", o CR decide que "deverão ser completados os passos já dados no sentido da nacionalização dos setores básicos de atividade económica (indústria, transportes e comunicações)". A par, "deverá ser aplicado um programa progressivo de reforma agrária".

Ao mesmo tempo, é definida pelo Conselho da Revolução a "afirmação clara do princípio de controlo organizado de produção pelos trabalhadores". Para o CR, "é necessário que os trabalhadores sintam que a economia já não lhes é estranha, ou seja que a construção socialista da economia é tarefa deles e para eles".

O país está como está, mas nada disso interfere, antes beneficia, na promoção fora de portas do mercado nacional. Um cartaz, da delegação do turismo português, espalhado pelas ruas de Paris, tem um sugestivo lema: "Em Portugal tudo toma o gosto de liberdade". A campanha é considerada uma das melhores que se têm efetuado em França, escreve o Diário de Lisboa na primeira página.

Faltam 13 dias para Portugal ir a votos.