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Expresso

A caminho da Constituinte

Data da Revolução passa a Dia de Portugal

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Renascimento. O 10 de Junho dá lugar ao 25 de Abril

Quando o poder político torna o 25 de Abril um dia sagrado, o Vaticano salta do aconselhamento meramente espiritual para entrar no campo material da cruzada dos votos. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos). 

O Diário do Governo publica hoje um decreto-lei da Presidência do Conselho de Ministros (o 210-A/75) que institui como "feriado nacional obrigatório" o dia 25 de Abril, doravante o "Dia de Portugal". Este "deixa, portanto, de comemorar-se a 10 de junho e passa a sê-lo na histórica data de 25 de Abril, para assinalar a vitória das forças democráticas sobre o fascismo", escreve "A Capital".

Num exemplo da situação em muitas empresas e instituições do país, os trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa suspendem do exercício de funções, com proibição de entrada nas instalações e instauração imediata de processo, sete chefes que foram nomeados no anterior regime e não oferecem quaisquer garantias de empenhamento na reestruturação da instituição, além de não se integrarem na marcha revolucionária em curso no país".  

No comunicado da Brigada Revolucionária dos Trabalhadores da Santa Casa, é indicado o nome dos "sete chefes". Uma fonte da empresa revela ao vespertino que no plenário estiveram 547 trabalhadores. 

Vaticano encaminha os (de)votos A campanha eleitoral em Portugal, como de resto a situação do país desde o 25 de Abril, desperta enorme interesse além-fronteiras. Após o episcopado português, no seu conjunto, e alguns prelados, em particular, terem já (de modo mais ou menos direto) dado indicações de voto, chega a vez de Roma. "Os católicos portugueses não devem dar o seu voto a partidos cujas opiniões e métodos são incompatíveis com as determinações cristãs do homem e a sua vida social. (...) Ninguém ainda conseguiu demonstrar que a visão católica (...) pode ser reconciliada com ideias marxistas", foi afirmado aos microfones da Rádio Vaticano.

As palavras, de ontem, estão hoje transcritas na generalidade da imprensa portuguesa. Segundo a emissora oficial da Santa Sé, "os católicos portugueses deveriam votar a favor daqueles grupos políticos que apoiem a religião, a família e o emprego justo de bens materiais e espirituais contra a repressão económica e política".

Entretanto, pelo país fora, são praticamente nulas as novidades no tom do discurso dos diversos partidos. Usando como amostragem a síntese feita pelos títulos de "A Capital" sobre atividades de campanha desenvolvidas hoje, o panorama pouco supreende: "Não alinhar na campanha de mistificação e aldrabice" (FEC) e "derrubar o capital (UDP).

Já a atenção dada aos trabalhadores merece um capítulo à parte. Assim, os "trabalhadores de empresas nacionalizadas constituem vanguarda da batalha económica" (MDP/CDE), "ninguém fará a revolução em nome dos trabalhadores" (MES), a "social-burguesia ((é)) o principal inimigo das massas trabalhadoras" (FSP) e "ambição dos comunistas é servir o povo trabalhador" (PCP). Aprofundando a ideia, Álvaro Cunhal, o secretário-geral dos comunistas, num comício em S. Julião do Tojal, afirma: "O nosso compromisso é com o povo trabalhador, mas contra os monopólios, contra os latifúndios".

Noutra onda encontra-se o PPD: "Estamos numa fase de democracia provisória". Já no caso do PS, José Magalhães Godinho, num comício em Paço de Arcos, adverte para uma campanha em curso contra os socialista, que pretende "separar as bases dos seus dirigentes".

Faltam sete dias para Portugal ir a votos.