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Expresso

A caminho da Constituinte

Com música e poesia, PCP enche Belém

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Os comunistas fazem em Belém uma espécie de Festa do Avante "avant la lettre". A campanha prossegue, com incidentes. Os bispos dizem em quem, e em quê, não se pode votar.  (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

Numa campanha eleitoral muito centrada no discurso político puro e duro, na sucessão de comícios e sessões de esclarecimento, o PCP ensaia em Belém uma nova forma de passar a mensagem. É a Grande Festa Popular, organizada pelo setor intelectual do partido, em que a música e a poesia são aperitivo dos discursos políticos.

O cartaz artístico é de peso. Nas cantigas, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Fernando Tordo e o Coro da Academia dos Amadores de Música (sob a direção de Fernando Lopes Graça), entre outros. A leitura de poemas e outros textos cabe a Ary dos Santos, Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues e Casimiro de Brito, entre outros. 

O "Diário de Lisboa" faz da sessão um relato com grande envolvimento afetivo. "Só quem lá esteve é que poderá dizer como a festa foi grande", escreve o jornal. "Em dois palcos improvisados, junto dos quais a multidão se aglomerava sem espaço para um alfinete, muitos artistas, militantes ou simpatizantes do PCP provaram que a liberdade finalmente existe no país".

Por Belém passam ao longo do dia, que terminaria noite fora com um baile popular, "mais de cem mil pessoas". Já "A Capital", mais circunspecta no relato, inflaciona a assistência. "À grande festa popular acorreram talvez, de manhã à noite, umas 200 mil pessoas de todas as idades".

Incidentes de campanha Pelo país fora, num dia forte para os partidos, ou não estivéssemos hoje a terminar o segundo fim de semana de campanha, prossegue a maratona de candidatos por aldeias, vilas e cidades.

Os socialistas andam pelo Norte. Em Braga, Mário Soares salienta que "o PS quer destruir o capitalismo para haver uma sociedade mais justa e mais livre, uma sociedade verdadeiramente socialista, num sistema socialista que seja português".

A Casa do Povo de Azeitão recebe um comício do MDP/CDE, um dos seis partidos que assinou o pacto com o MFA. Daniel Cabrita afirma: "Todos os que trazem a receita no bolso e dizem saber resolver todos os problemas andam a enganar o povo. O socialismo não cai do céu nem nós o temos na manga".

Em Viseu, um comício do CDS fica às escuras no momento em que o general Galvão de Melo, candidato do partido que foi um dos membros da Junta de Salvação Nacional, fazia uso da palavra.

O "apagão" é provocado por contra-manifestantes que se insurgem contra o CDS, por ser "fascista". O episódio é um dos muitos "incidentes que em várias partes do país assinalaram a entrada na segunda e decisiva fase da campanha eleitoral, embora nenhum deles se tenha revestido de especial gravidade", explica "A Capital".

Em Montalegre, num desses incidentes, provocado por elementos conotados com o PPD que intercetaram uma caravana do MDP/CDE, dois homens foram "feridos a tiro", ambos numa perna, tendo num caso a bala entrado e saído.

Um guia para devotos Entretanto, são conhecidas com mais pormenor as conclusões da Conferência Episcopal, que ontem terminou em Fátima.

Os bispos portugueses condenam a abstenção e desaconselham o voto em branco (uma sugestão na ordem do dia, feita por iniciativa de elementos do MFA).

Sem dar uma indicação de voto num determinado partido político, a Conferência Episcopal acabar por dizer aos fiéis devotos que há certas cruzinhas que os eleitores não devem carregar no momento de preencher o boletim. 

"O que está vedado aos católicos é dar o voto a partidos que, pelos seus princípios ideológicos, pelos seus processos que preconizam, ou pela realização histórica para que tendem, se lhes afigurem incompatíveis com a conceção cristã do homem e da sua vida em sociedade", diz o comunicado dos bispos portugueses.

Faltam 12 dias para Portugal ir a votos.