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Expresso

A caminho da Constituinte

Coladores de cartazes detidos

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Quotidiano. As paredes são em 1975 um ponto nevrálgico da “propaganda”, como se vê nesta imagem de “A Capital”

São mais as prisões para quem cola cartazes em violação da lei eleitoral do que para quem boicota comícios e comete atos de violência sobre candidatos. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

Na "propaganda" (termo sem um sentido pejorativo que mais tarde aquiriria) de 1975 é vital a conquista de todos os recantos das paredes para colar cartazes. E muitas vezes só se ganha algum espaço anulando a propaganda adversária, o que contraria a Lei Eleitoral.Por esse motivo, só em Lisboa, dão entrada no Governo Civil três dezenas de indivíduos que de madrugada foram apanhados a fazer colagens em cima de cartazes de outros partidos. Os infratores ficam à guarda das autoridades militares.

PCP atacado em Aveiro Se a situação do PPD, por exemplo, é por vezes complicada na região sul (como se verificou ontem em Beja), mais generalizadas são as receções adversas a partidos de esquerda, nomeadamente o PCP, no norte do país.Em Lombomião, concelho de Vagos, distrito de Aveiro, uma sessão de esclarecimento dos comunistas é recebida por manifestantes "armados de matracas, machados, fachos e paus", segundo relato de "A Capital". Os populares gritam "PPD, fora com os comunistas" e "só a muito custo foram sustidos por elementos da GNR".Nada de impeditivo da iniciativa, que prossegue dentro da normalidade (da época). "A sessão, no entanto, decorreu da melhor maneira, apesar das pedras que de vez em quando caiam no telhado e vidraças da escola primária", escreve o vespertino.Este episódio ocorre em Aveiro, "terra de tradições democráticas, local dos congressos da velha Oposição nos tempos do fascismo", enquadra o jornal. O incidente é apenas mais um entre vários, registados nos dias anteriores em Vilar e Bunheiro. Nesta localidade, elementos das Forças Armadas, à paisana, tiveram de chamar reforços. Depois, detiveram "sete indivíduos, alguns dos quais armados de matracas, varapaus e até com uma catana", que boicotavam a sessão do PCP.

Campanha nos mercados periféricos As sessões de esclarecimento em aldeias e vilas das províncias são uma estratégia seguida pelos principais partidos políticos. O PS aproveita o facto de quinta-feira ser o dia de mercado semanal na Malveira para levar a esta terra da região saloia, poucas dezenas de quilómetros a norte de Lisboa, os seus principais dirigentes (com Mário Soares e Mário Sottomayor Cardia à cabeça).Soares lembra aos presentes que, há mais de um mês, o PS sugerira a outros partidos, "nomeadamente ao PCP e ao PPD, para que se fizesse uma mesa redonda através da RTP, tendo como moderador um representante do MFA", segundo o relato do comício publicado pelo "Diário de Lisboa"."Até à data, nenhum desses dois partidos", prossegue, "quis responder a essa oferta, que seria melhor do que a propaganda que vem sendo feita, para esclarecer o povo português".

Saramago: o socialismo ou o olho da rua No "Diário de Notícias", José Saramago toma posse como diretor-adjunto. Faz equipa com Luís de Barros (ex-subsecretário de Estado da Informação), que dias antes iniciara funções como diretor.Saramago, cuja carreira de escritor como hoje a conhecemos só se consolidaria a partir do final da década de 70 do século XX, diz ao que vai. "Pessoalmente, quero servir a construção do socialismo. E o DN vai ser um instrumento nas mãos do povo português para a consolidação dessa linha, já adotada pelo Conselho Superior da Revolução. Quem não estiver abandonado neste projeto, é melhor abandonar o "Diário de Notícias".

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