Siga-nos

Perfil

Expresso

A caminho da Constituinte

Arcebispo de Braga explica em que se deve votar

  • 333

Igreja. Dom Frrancisco Maria da Silva foi durante 14 anos arcebispo de Braga

D.R.

D. Francisco Maria da Silva, arcebispo de Braga, não esteve com meias medidas. Aproveitou as páginas do "Diário do Minho" para analisar os programas dos candidatos às eleições e concluir que só se podia mesmo votar em dois dos 12 partidos concorrentes - no CDS ou no PDC.

O arcebispo de Braga tinha já feito a sua análise aos candidatos às eleições para a Constituinte. Em boa verdade, até o tinha publicado bem antes do arranque da campanha eleitoral, no dia 13 de março de 1975. Só que, precisamente um mês mais tarde, os socialistas de Braga acordaram para o suplemento do "Diário do Minho" onde o arcebispo fazia a sua leitura das candidaturas e concluiram que se tratava de "uma intensa campanha reaccionária.  

A conferência de Imprensa, convocada pelo PS, para apresentar os candidatos pelo distrito de Braga acabou por ser engolida pelas palavras do arcebispo. No dia seguinte era das opiniões de D. Francisco Maria da Silva que os jornais falavam. Os candidatos socialistas passaram para segundo plano. 

E o que dizia, afinal, o arcebispo? Muito simplesmente, analisava os programas partidários à luz da doutrina da Igreja e avaliava quais estavam em acordo com os princípios católicos. A conclusão era simples: todos estavam de fora. Todos, menos dois: o CDS, de Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa e o PDC (Partido da Democracia Cristã), de Sanches Osório. 

O arcebispo garantia ter feito o trabalho de casa."Apesar de termos procurado diligentemente, não encontramos no programa ou ideologia destes partidos, nada em desacordo com a doutrina da Igreja. Ao invés, tudos nos parece em teoria e de facto, em perfeito acordo", garantia. 

Todos os outros estavam feridos de pecados mortais. O PCP, desde logo, porque "pela voz do Papa a Igreja nos previne ser o comunismo um sistema cheio de erros e sofismas (Pio XI) que usa uma propaganda verdadeiramente diabólica". E, na verdade, sobre este nem valia a pena alongar-se em descriminações do programa eleitoral. Tal como com o PS. O arcebispo não tem dúvidas que "em geral o socialismo se identifica com o comunismo quanto ao fim que se pretende atingir" e, assim sendo, se o PCP não vale para a Igreja, o PS paga por tabela e com a mesma moeda. 

Os sociais democratas do PPD cometem, em 1975, o mesmo pecado de "ter como objetivo supremo instaurar no nosso país uma sociedade socialista". Isso, garante o arcebispo, está expresso na página 24 do programa eleitoral e, se tal não bastasse para afastar o PPD do caminho da Igreja, há ainda a ter em conta a menção feita ao divórcio e ao planeamento familiar matérias em que  não há dúvidas: "estão em desacordo com a doutrina", diz o arcebispo. 

A entrada da Igreja na campanha eleitoral não foi nova. Com o caso Renascença ainda bem presente, os bispos faziam questão de marcar posição e, ainda na véspera a Conferência Episcopal tinha lamentado ter ficado privada da "livre orientação doutrinal" da então emissora católica. Os bispos eram mais subtis, apelando ao voto dos abstencionistas, mas também sublinhando a necessidade dos partidos garantirem "a liberdade de exprimir a fé, de forma individual ou colectiva, em particular ou em pública". 

A Igreja era subtil na transmissão da sua intenção de voto, media as palavras. O arcebispo, a Norte foi direto ao assunto. E, claro, nunca foi sancionado pela hierarquia...