Siga-nos

Perfil

Expresso

A caminho da Constituinte

A campanha aquece, com matracas e rajadas

  • 333

A batalha política passa das palavras (duras) às vias de facto. A Comissão Nacional de Eleições avisa as forças concorrentes que poderão ser excluídas dos tempos de antena da rádio e da TV caso persistam em "incitamentos ao ódio e à violência". Em Beja, o boicote a um comício do PPD mete correntes e matracas. Militares têm de disparar rajadas para o ar. (A campanha eleitoral das eleições para a Assembleia Constituinte iniciou-se no dia 2 de abril de 1975, há 40 anos. Vamos reviver como se fosse hoje o que foi essa primeira grande prova de fogo para a jovem democracia portuguesa, em abril de 1975. Será a campanha dia-a-dia. Pode consultar AQUI todos os artigos).

A campanha eleitoral entra na segunda semana, numa espiral de agressividade verbal e física. Ante a persistência de "ataques injuriosos ou difamatórios a pessoas e a partidos" e até "incitamentos ao ódio e à violência", a Comissão Nacional de Eleições (CNE) adverte as forças concorrentes às eleições para Assembleia Constituinte que poderão ser excluídas dos tempos de antena da rádio e da TV. A CNE anuncia uma eventual tomada de tomada de posição sobre a questão para o dia 11 de abril.

No Baixo Alentejo ocorrem as primeiras perturbações graves no período de campanha (embora as escaramuças e mesmo situações de confronto grave fossem o pão nosso de cada dia nos primeiros meses de 1975). 

Em Beja, um comício do PPD, para apresentação dos candidatos pelo distrito, acaba muito antes do previsto e só a intervenção dos militares impede males maiores. A sessão realiza-se no teatro Pax Julia. No exterior, manifestantes anti-PPD, que segundo alguns relatos pertenciam ao Partido de Unidade Popular (PUP), iniciam o cerco do edifício. Além das palavras de ordem, os argumentos são esgrimidos com correntes e matracas.  

"Como os dirigentes e assistentes ao comício continuasse no interior da sala de espetáculos [entre os quais estavam Marcelo Rebelo de Sousa e Vasco Graça Moura], receando serem molestados, saiu uma força do Regimento de Infantaria 3 que seguiu para o local, tendo chegado a fazer uma rajada para o ar", segundo relata "A Capital".

"Os assistentes foram finalmente evacuados em camiões do Exército. Não há, todavia, notícia de que alguém tenha recebido tratamento no hospital regional", esclarece o vespertino. 

Entretanto, é conhecida (através do "Jornal do Comércio")  a mensagem que António de Spínola teria dirigido ao país caso tivesse sido bem sucedido o golpe de 11 de março. Com o fracasso da intentona, o general, primeiro Presidente da República depois de 1974, teve de fugir para Espanha. 

"Mais uma vez sou chamado a este cargo", escreveu Spínola num manuscrito onde estava rasurado o esboço do discurso. No planos do mítico comandante militar da Guiné estava a proclamação do "estado de sítio" por tempo indeterminado e o adiamento das eleições para novembro de 1976. 

Faltam 16 dias para Portugal ir a votos.