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A agenda de Mário Claúdio

Um Presente para o Paulo

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Mário Cláudio

A escolha de um presente de aniversário, operação com que nos confrontamos a cada passo, e desde que o decurso do tempo passou a determinar o festejo, mexe com um quadro multidisciplinar, da antropologia à sociologia, e da psicologia à economia, pelo menos. Sobretudo em era como a nossa, caracterizada pela hegemonia do invólucro sobre o conteúdo, reagir contra o que de frívolo em tal tendência se implica poderá equivaler a reivindicar um mínimo da dignidade que nos deve assistir. E se os papéis mais ou menos coruscantes, as fitas e laços variegadamente entretecidos, as borboletas, e demais mimos, não bastarem para exprimir o nosso afecto, importará então recorrer a outros expedientes.

O meu amigo Paulo completou cinquenta anos de idade, e convidou-me para a festa à beira-mar em que reuniria os que lhe são mais queridos. Médico e investigador, mas também homem da cultura, responsável pelo aproveitamento das comemorações da tribo como oportunidade de redescoberta do que somos, não haverá outro mais difícil de brindar com aquilo que merece. Fosse eu o magnata que não invejo, e generoso como me orgulho de continuar, contemplá-lo-ia com uma peça de pintura do Bacon, disponível ainda no mercado, ou com uma dessas tânagras autênticas que tradicionalmente correspondem ao gosto dos grandes estetas. Para além disto, e bem vistas as coisas, que outra dádiva se ajustaria ao Paulo, um tubo de ensaio em baccarat, um estetoscópio cravejado de diamantes, ou um bico de Bunsen que emitisse fogos de Bengala?

Após longa matutação, e socorrendo-me tão-só da pura fantasia, uma vez que em matéria de presentes de aniversário não existe conselho de outrem que não desemboque no CD, no DVD, ou no último best-seller internacional, caprichosamente traduzido, acabei por tomar uma decisão. Honrá-lo-ia com um manuscrito do meu punho, produzido aliás em resposta ao convite que ele próprio, o Paulo, me dirigira, cuidadosamente inserido num envelope elegante, e fechado como se impunha. Mas confesso que, filho da época que me coube, e contaminado pelas inanidades respectivas, não resisti a pregar no embrulho um pequeno laçarote, não tão farfalhudo como se exige, mas nem por isso, julgo eu, menos significativo.