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A agenda de Mário Claúdio

Mário Cláudio

Os Ossos do Marquês

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Nem sempre, ao apropriarmo-nos de uma história, cometemos um acto de traição, ou agredimos os direitos de autor. Se quem conta um conto acrescenta um ponto, então aquilo que relatarmos haverá fatalmente de separar-se da matriz, constituindo portanto matéria renovada. Afoito-me assim a trazer até aqui o que escutei na sessão de lançamento de um livro, e que o meu talento de ficcionista, maior ou menor, desejavelmente enriquecerá, desbastando o episódio de qualquer acessório que o torne menos nítido, e menos efectivo.

Alguém que se assumia apaixonado estudioso da história geral, e sobretudo da pátria, narrava as aventuras e desventuras que correra, em consequência de pretender determinar a localização da sepultura de Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras, e marquês de Pombal. E lembrava que escassos portugueses se acharão em condições de responder à pergunta sobre a ubiquação dos restos mortais do famoso primeiro-ministro de Dom José, feitos mais ou menos desaparecer com a sua queda em desgraça, logo após a ascensão ao trono da Senhora Dona Maria II.

Vitimado por diversas misérias do corpo, entre as quais não representaria por certo menor infâmia o hemorroidal que o atenazava, Sebastião José morre aos cinco de Maio de 1782, completam-se agora duzentos e trinta anos. Aos oitenta e três de idade, e na sua residência de Pombal, rodeado pela família, e por boa cópia de eclesiásticos, entrega ele a alma ao Criador, sendo pouco depois inumado na Igreja de Nossa Senhora do Cardal, da mesma vila. Violado o túmulo pela soldadesca napoleónica em 1807, acabariam as ossadas por ser removidas para a Igreja de Nossa Senhora das Mercês em Lisboa onde se acreditava haver sido baptizado o defunto. Mas não ficariam por tais bandas as andanças post-mortem do homem que percorrera as estradas da Europa, isto porque em 1923 o que dele sobejava seria trasladado para a também lisboeta Igreja da Memória.

E informava o referido comunicador de tais enredos, autarca muito conhecido, de que em demanda da última jazida desse que, segundo Camilo Castelo Branco, possuía "pêlos no coração", fora dar com ela, sim senhor, na dita Igreja da Memória, mas na sacristia respectiva. No meio de uma dessas fainas das zeladoras dos templos, sobre as quais esvoaça o cheiro da água choca das jarras a que se mudam as flores, associado ao aroma de cera de abrilhantar bancos e soalhos, ali se quedava a urnazinha do grande Marquês. Esquecida a um canto sombrio, e na desordem das beatíficas barrelas, só toparia com ela, e foi esse o caso do tal administrador municipal, quem se dispusesse a retirar o balde da lavagem, e mais a esfregona que lhe tinham plantado em cima.

Compreender-se-á agora por que motivo não poderia reter-se o presente cronista de conferir maior publicidade a tão dolorosa intriga. Cómica para os cínicos, e anódina para os frívolos, registamo-la nestas linhas como ilustrativa de quanto, talvez inocentemente, e não raro com o festejo do riso, continuamos a ser.