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A agenda de Mário Claúdio

Os enólogos

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

O consumo do vinho aculturou-se a tal ponto, tornando-se de tal forma expressão de moda, e indício de status, que não tardará que se converta o ritual que o acompanha em exclusivo substituto da sua simples fruição. A esta luz um saudoso slogan do passado pré-revolucionário, Beber Vinho É Dar de Comer a um Milhão de Portugueses, espanta-nos agora pela sua ingénua boçalidade. Afixado no interior dos transportes públicos, e desencadeando o escândalo dos turistas que nos visitavam, procedentes de países onde as campanhas eram já no sentido da moderação, semelhante cartaz aparece-nos hoje não menos cafona do que o aviso "Não Cuspa no Chão", ou "É Proibido Falar Mal".

Nos dias que vão correndo qualquer bicho-careta se arroga uma ciência enológica que aterroriza os simplórios, situando-se afoitamente na galeria dos refinados epicuristas, tão seguros do seu gosto vinícola como dos méritos e deméritos do treinador da equipa do seu extremado clube. Só que na maioria dos casos não acerta a bota com a perdigota, e o esforço de arvorar um saber consumado redunda em gagues picarescos, quando não na expressão da mais rematada patetice. Tenho assistido em restaurantes a cenas inesquecíveis, e aproveitáveis para exemplares rúbricas do tratado de Sociologia mais elementar, conforme se deduzirá do parágrafo a seguir.

Vi um sujeito verter na boca o seu gole de maduro tinto, bochechar atentamente como exímio provador, e devolver ao copo o "precioso néctar", de nariz torcido, e reclamando um "produto diverso, mas de preferência mais caro". E há pouco ainda, fiquei estupefacto com a cachopa dos seus dez anos incompletos, mas dessas a quem o pai desvanecidamente trata por "a minha princesinha", e a mãe despachadamente por "filhota", sustentar como proficiente escanção o vaso cristalino pelo pé, erguê-lo para estudar a cor da lágrima, aspirar com alguma desconfiança o bouquet, mastigar a amostra, e encolher os ombros num "Serve..." entre desiludida e resignada.

Estranhar-se-á assim que se recomende aos nossos cidadãos-enólogos que, tirando partido da crise, comecem a educar as suas excitações? Também por via de tudo isto residirá no vinho a verdade, a de quantos querem, mas não podem, e a de quantos só por fora crescem desmesuradamente.