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Expresso

A agenda de Mário Claúdio

Etiqueta de Restaurante

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

A propagação da fast-food, exterminando a cozinha caseira, e reduzindo a hora das refeições ao ápice em que se alivia uma necessidade fisiológica, traria consigo uma outra desastrosa consequência. O cerimonial da ida ao restaurante, ou daquilo que com maior espessura os Franceses denominam "dîner en ville", desfecharia o golpe de misericórdia num dos últimos passos da liturgia cívica, disciplina indispensável ao equilíbrio das emoções humanas. Come-se fora por inevitabilidade, por conveniência, ou então pelo desejo de provar alguma iguaria de autor, assinada por um qualquer epígono do decantado Adrià, a quem os cépticos atribuem a virtude de satisfazer a urgência dos anorécticos desdentados.

Não será de estranhar por isso que se atropelem regras antigas, e em geral higiénicas, de convívio e partilha do espaço, desrespeitando-se o semelhante, remetido à condição de um simples elemento, a acrescer ao colectivo dos deglutinadores. Entra-se na sala de cigarro nos lábios, e sai-se dela assim, sempre que o fumo é permitido, ou avança-se impantemente de quico na cabeça, ou de mãos nos bolsos. E aquele gesto tradicional que distingue a nobreza de costumes, quando não a verdadeira realeza, de cumprimentar com um shake-hands o restaurateur, ou o garçon, que nos acompanha à porta, é julgado pelos pequeno-burgueses um apeamento de classe, se não uma fraqueza inadmissível, ao imporem-se a si mesmos a partida soberba, e de nariz no ar.

Já não se fala da ausência de maneiras, a faca na boca, ou a mastigação de mandíbulas escancaradas, infracções a um mínimo código que nem na área doméstica se deveriam tolerar. E quanto às criancinhas desembestadas, esbarrando aos guinchos nas pernas dos empregados, ou lambendo o gelado debaixo de nossa mesa, que Deus lhes dê vida e saúde para que à sua própria custa, e à revelia dos pais, se convertam aos valores da Civilização!

Fique como derradeiro recurso para os adeptos dos rituais restaurativos a tasca onde ainda se cospe no serrim que reveste a tijoleira.