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A agenda de Mário Claúdio

Dulcineia

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

O gosto pelas ficções de que se fabrica o imaginário de um povo, quando não alimentado pelo contexto em que desponta, tende fatalmente à ineficácia, ou à extinção. E sempre que se remete a necessidade de o sustentar à exclusiva esfera dos sábios, ou dos especialistas, perde-se em definitivo a partida. Pergunta-se que lugar ocupará por exemplo Camões na caixinha mental do nosso homem da rua, capaz de transcender o esponjoso sabor a compêndio escolar, ou o desafinado eco das cerimónias com parada de tropas, discursata solene, e imposição de insígnias aos que "se vão da lei da Morte libertando".

Doña Isabel, manchega de gema, mãe de filhos, avó de netos, e apaixonada leitora de Miguel de Cervantes, abriu na sua Casa de la Torre em El Toboso, aldeia natal da bela Dulcineia, um espaço de homenagem ao Cavaleiro da Triste Figura. E com isso se envergonha o bafiento programa de academias várias, e a ausência do mesmo nas fundações que morrem por impotência de quem as dirige. O que Doña Isabel propõe ao viandante é um ritual sem bandeiras, e sem actas de reunião, proveniente da alma de quem o engendrou, e partilhável com quem se apresentar de coração limpo. Além da lareira da ama, da cozinha da mesma Dulcineia, e da mesa do Dom Quixote, ali se nos oferece uma experiência intocada pelo desconsolo das estações da "Cultura", a biblioteca choruda, mas reduzida à imobilidade, ou o didáctico museu, apoiado na informação multimédia que faz fugir a vista, e nos deixa ocos de ideias e emoções.

Quanto a livros, e além do emblemático, exibe Doña Isabel um imenso cartapácio onde cada um dos maiores cervantistas, representantes de latitudes diversas, transcreve pelo próprio punho um capítulo da obra-prima da prosa da hispanidade. Serve de pórtico ao in-fólio um longo texto, manuscrito também, e assinado por José Saramago, o que nos leva a magicar sobre que tarefa cumprirá por lá o português que deveria andar por aqui. Mas a resposta a tal questão daria um romance, não menos extenso do que o outro, e com certeza não menos pícaro em muitas das suas passagens.

Quem nasce para a herança dos frutos da Terra, sobrepondo-se a reticências e burocracias, atreve-se como Doña Isabel a gestos duráveis assim. Os restantes, os que namoram o imediato lucro de pão e circo, erguem apenas os olhos para as acrobacias aéreas do Red Bull, ou limitam-se a arrebitar as orelhas para o ronco das máquinas dos rallies possíveis.

Exausto entretanto de batalhar com moinhos de vento, e seguido por um Sancho Pança que não cura destes enredos, vem Dom Quixote no fim das tardes, e pelo tanger das avé-Marias, aquecer os pés gelados ao lume sempre acesso da Casa de la Torre.