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A agenda de Mário Claúdio

Cartilha do Bisavô

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

Sábio como todos os outros, sustentava um de meus bisavós a utilidade de desconfiar daqueles amigos nossos que não bebem vinho, não gostam de cães, e não nos abrem a porta de sua casa. O esquematismo de semelhante sentença, declinando o veio educativo e morigerador que assiste às obras de ensinança da vida, do tipo de Il Cortegiano, de Baldassare Castiglione, não destoará das receitas que hoje se encontram nos livros ditos "de auto-ajuda". A circunstância porém de haver o preceito sido inculcado por um homem que eu admirava, e ainda por cima do mesmo sangue que me corre nas veias, torná-lo-ia inesquecível, e sempre pronto a ocorrer, isto até em momentos pouco oportunos para o efeito.

Não me recordo de algum dos meus companheiros mais dilectos reunir a totalidade dos defeitos suscitados por aquela prudente suspeita, designada por meu bisavô. Quererá isto dizer que apenas merecerá cada um dos que fogem à perfeição um terço, ou dois terços, do afecto que eu deva dedicar-lhes? Não se tabela nestes termos a estima que se troca, e impõe-se-me a sensatez de me subtrair ao que não passa de um desses avisos, sujeitos a caução, em que abundam os velhotes. Importará não esquecer por outro lado os fóbicos que temem os canídeos, os alcoólicos em processo de regeneração, e os que encaram o ingresso de um estranho no seu habitat como ameaça de conspurcamento da alma que levam.

Súmulas como a de meu bisavô, repetidas de geração em geração, apresentam por garantia a proeza de terem galgado as décadas. E se no caso vertente não se esgotar o vinho, não se extinguirem os cães, e não caírem as casas, parecerá legítimo conceber que muito delas se mantenha procedente. A verdade todavia é que os bisavós que por aí se acomodam, entregues ao seu maníaco zapping da TV Cabo, raramente se inclinarão ao tom conselheiral, abraçado pelos antigos.

Não seria talvez meu bisavô exímio conhecedor da natureza humana, mas a sua célebre máxima possuiria o condão de projectar uma sombra sobre alguns dos meus momentos de mais sadia confraternização.