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A agenda de Mário Claúdio

Aceno a Júlio Resende

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

A vida ensinou-me a não me despedir tão cedo dos amigos, prosseguindo através do silêncio o diálogo com eles, e projectando o reencontro para onde, quando e como Deus quiser. Afastado Júlio Resende do chamado "dia-a-dia", mas por isso mesmo mais fundamente meu interlocutor agora, as perguntas que lhe dirigi, e que sem quebra acolheu com a inconsciente benevolência dos guias verdadeiros, ficaram todas respondidas. Assim sendo, só por "mestre" poderia tratá-lo eu, não por ser ele, conforme lhe expliquei, professor da Escola Superior de Belas-Artes do Porto, mas apenas por me ter transmitido o que não curam de perceber os que se reputam de sabichões. Refiro-me à serena cadência das horas em que se permanece connosco, e com quantos se manifestarem capazes de nos visitar naquilo que somos.

Desde menino habituado a ouvir-lhe o nome, havendo sido o pintor condiscípulo de meu Pai nos bancos da primária, treinei-me a entusiasmar-me à semelhança de vários pimpolhos da minha geração, e de idêntico estatuto social, com os comics que ele publicava em O Primeiro de Janeiro. Não raramente se relatavam aí as aventuras de um certo Matulinho, ganapo arrevesado, mas provido daquele grau de estranheza física que transforma em tipo uma existência comum. Matulinho marcaria presença tão notória na minha infância como Tintin logo a seguir, e a ele devo a proustiana reminiscência do cheiro a cola sobre papel de jornal, subido do calendário que no início de cada ano se recortava, e de onde surgia justamente aquela figura como personagem central, galgando os meses na mais divertida das inocências.

Em razão de distintos motivos estreitaria eu com o esplêndido pintor Resende laços de uma amizade que se sustentava de tardes de convívio, e que sem mácula haveria de durar até sempre. Ele retratava-me, eu escrevia textos para catálogos das suas exposições, e há pouco ainda, e a meu pedido, ilustraria Júlio Resende Do Espelho de Vénus, de Tiago Veiga, no que presumivelmente terá sido o seu derradeiro trabalho para livro. Conversámos devagar, entendemo-nos muita vez sem palavras, e nem sequer nos faltaria, a unir-nos, a fé amparante, de cujo latejo mais suspeitávamos um no outro do que nos apetecia falar.

Não se esqueceram dele nos tempos recentes, e como convém à praxe, os ínvios rafeiritos, a tentar morder-lhe os artelhos, imbuídos desse histerismo da última moda que coloca constantemente fora de moda quem dele padece. Mas Resende, ignorando-lhes os latidos, ou levando-os à conta de mero fatalismo sociológico, passava à frente na elegância dos grandes, e sem qualquer preocupação. De igual maneira, escusando-se a saborear com azedume os lances do fim, isto apesar da devoção com que via o "período negro" de Goya, abraçava as cores matinais, e corajosamente edénicas, como atestado de preferência do oiro ao nigredo, e como jubilosa modalidade de partilha do mundo.

Se por rasto não deixou Júlio Resende as pegadas do druida autoritário, ditador das leis da sua tribo, brindar-nos-ia ele com algo de bem mais precioso, e que milagrosamente se esquiva à usura, o sorriso do eterno rapazinho, encantado com o desenho da pomba que lhe voa das mãos.