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A agenda de Mário Claúdio

A Formiga e a Lente

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

Lançado pelo ecologista Mark Moffet, o tenebroso alerta de que as formigas argentinas, propagando-se em termos desmesurados, poderão converter-se em supercolónias, ameaçando assim a sobrevivência da espécie humana, acaba de inspirar o biológo Edward O. Wilson, autor de um romance que justamente se intitula Anthill. Aí se narram os episódios de uma nova Íliada, protagonizada por dois formigueiros imensos, disputando-se a supremacia que lhes proporcione a fundação de um império final. E o modo como nesta ficção se avolumam os dados da ciência, quando tocados pela fantasia das letras, poderá guiar-nos na dilucidação de vários outros enredos que dia-a-dia nos entram pela porta adentro.

Entre formiga e lente, se quisermos apostar num critério de razoabilidade, situar-se-á porventura a desejada nitidez dos acontecimentos, a que não se deixa contaminar pela imaginação que transforma anões em gigantes, e insectos em monstros. Nem a formiga enverga a couraça de Aquiles, resplandecente em suas figuras cinzeladas, nem a lente, substituindo-se ao cavalo de Ulisses, encaminha para Tróia os raios de sol que haverão de incendiar a cidade. A meio caminho entre heroísmo e desastre deverá fixar-se-nos a vista, não empolgada pelos faustos da epopeia, ou pelos infaustos da tragédia, mas suficientemente serena para domesticar o pânico que se pinta no rosto de Medusa.

A vaga de noticiários que puxa para as primeiras páginas os comportamentos pedófilos, inegavelmente muito graves, assacados a uma fímbria da hierarquia da Igreja Católica, e os fenómenos de violência escolar, sem dúvida preocupantes, que nos surgem num quadro que divide discentes e docentes em rufias e anjos, ficam como paradigma de uma relatividade óptica que se recusa à consciência da intervenção da lente, e que ao mesmo tempo exagera a dimensão da formiga. Esquecem-se por longos momentos os milhões que morrem à fome por haverem nascido em lugar impróprio, e os outros tantos que alimentam as fileiras do trabalho escravo, e da tortura por delito de opinião.

Antes que venha o diabo, e escolha entre formiga e lente, higiénico seria que optasse cada qual pela réstia de verdade que lhe assiste, a que sentimos em harmonia com o vasto Mundo, mas de olhos mais voltados para dentro de nós.