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100 reféns

Se forem abusados sexualmente apontem a data num papelinho

Tiago Mesquita

"O facto de os abusos alegadamente praticado por Carlos Cruz em Elvas terem afinal, segundo os juízes concluíram desta vez, ocorrido já em Janeiro de 2000 e não em finais de 1999, como tinha ficado provado no primeiro julgamento do processo, foi fundamental para a absolvição do ex-apresentador televisivo.

É que nessa altura já o jovem de quem ele terá abusado havia feito os 14 anos, deixando o crime em causa de ser de pedofilia para passar a ser de acto homossexual com adolescente - um crime entretanto despenalizado na lei portuguesa." Público

Portanto, desta sentença retiramos um ensinamento que deve ser transmitido às crianças. Se forem abusadas sexualmente, não confundam as datas. E se forem abusadas com alguma frequência arranjem um moleskine e anotem. Baralhar a data da Batalha de Aljubarrota num teste da escola pode dar direito a negativa e reprimenda, mas não se lembrar do dia em que a Bota Botilde saiu da televisão, do imaginário infantil, e se tornou num verdadeiro pesadelo pode ter consequências bem mais graves no futuro. Sim, não deve ser fácil, depois de anos a servir de brinquedo sexual nas mãos de meia dúzia de predadores, e numa idade tão precoce, achar que um dia, bestas que os forçaram a conhecer uma nova realidade, em todo o seu esplendor nojento e perverso, vão safar-se graças à secretaria judicial e a um problema de calendário. Sugiro um calendário do advento para as vitimas de abusos sexuais em alturas natalícias.

Esta vitima, uma entre muitas, tinha 14 anos de idade. E convém lembrar que não estamos a falar dos 14 anos dos dia de hoje - bem mais emancipados, preparados e informados - nem de miúdos com a proteção dos pais e restante família, mas sim alguns, de crianças que, institucionalizadas, teriam uma suposta proteção do Estado português, que devia tê-las blindado enquanto tutor legal. Ninguém estará certamente à espera que um miúdo de 14 anos, depois de ter sido abusado sexualmente, grave o dia, mês, ano, local e hora, para que, num futuro incerto, na altura imaginado a negro, não veja alguém fugir a uma condenação por uma questão relativa à data de aniversário do mesmo. O abuso foi, afinal de contas, mais por altura da comemoração do nascimento do menino da Casa Pia do que da do menino Jesus. Sacana do puto. Trocou as datas e pôs este senhor, tão puro, na Cruz. Afinal o crime não é este, é aquele.

O bug do ano 2000 pelos vistos só teve mesmo efeitos em Elvas. Os criminosos agradecem. E assim vai a justiça em Portugal.

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