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Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Quer saber porque acabaram os bonecos do Contra-Informação?

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O melhor programa de sátira e humor da história da nossa televisão chegou ao fim. A crise e os cortes orçamentais dizem uns. Um programa incómodo para o established, sem dúvida. Mas a razão só pode ser uma. Saiba qual.

Acabar com um programa como o Contra-Informação nunca poderia passar por um motivo de contenção ou corte orçamental. Isto porque não consigo admitir que numa estação pública se pague vinte mil euros por mês a alguns apresentadores de concursos para dizerem baboseiras e depois se alegue que não há dinheiro para manter um programa que presta um verdadeiro serviço público, há anos a fio, mantendo sempre níveis de qualidade irrepreensíveis. Ou a RTP acha que serviço público passa pelos telespectadores saberem que A e B já foram muitos felizes atrás de uma moita na praia de Mira? Não me parece.

Outro motivo poderia ser a alergia que um programa deste género causa. Terrivelmente assertivo, com uma capacidade de satirizar inteligentemente a actualidade como nenhum outro, tornando-se cada vez mais incómodo para uma sociedade e actual classe política que já deu mostras de ter pouco poder de encaixe. O grau de desenvolvimento de um país também pode ser medido pela capacidade que este tem ou não de se rir de si próprio, e pela liberdade que quem cria ou humoriza tem de o poder fazer livremente e sem espartilhos. E nesse aspecto estamos a anos-luz de muitos outros países. Temos muito que aprender. Basta pensarmos no humor Inglês.

Somo o país dos Malucos do riso, Maré Alta e outros "fenómenos" do género, programas "fáceis" que conquistam com facilidade audiências. Mas mesmo este espartilho mental não parece ter sido a causa. Até porque o Contra-Informação, quando passado em horário decente (coisa que já não acontecia), sempre foi bem recebido pelo público.

Por tudo isto o único motivo plausível para se acabar com um programa como a Contra-Informação apenas poderá ser o de os bonecos terem sido ultrapassados pelos personagens reais que caricaturavam. Ou seja, isto está de tal forma de pernas para o ar que começámos a não perceber quem na verdade é o boneco. Se o próprio boneco ou a figura real. Quando a realidade é mais caricata e divertida que o humor que a recria e procura satirizar, a essência de um programa deste género morre. Exemplo: há muito que José Sócrates fez "José Trocas-te" perder a piada.  Isto porque o original faz rir muito mais do que o boneco. Até admira o boneco não ter pedido a demissão à Produtora Mandala por se sentir ultrapassado e se estar com uma depressão profunda. Mas há mais: Madaíl, Queiroz e tantos, tantos outros...

Se olharmos para tudo o que se tem passado nos últimos tempos verificamos que vivemos num país de figurinhas,  fantoches, bonequinhos e muitas personagens verdadeiramente hilariantes, difíceis por isso de recriar com mais humor do que o seu natural, o que as próprias emanam. A nossa realidade é cada vez mais um episódio do contra-informação. O noticiário  das 20:00 suplanta qualquer programa de humor negro. Os bonecos ganharam vida própria. Ou o contrário.

PS: parabéns a toda equipa do Contra, à produtora e aos argumentistas pelos excelentes momentos televisivos que proporcionaram. Catorze anos, 170 bonecos. Um grande programa.