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Expresso

100 reféns

O que Deus dá com uma mão José Sócrates tira com as duas

O OE é um bilhete sem regresso para o descalabro social. Banqueiros, Boys e outros desesperam pela aprovação. Ninguém parece perceber que o Primeiro-Ministro deseja exactamente o contrário. A saída de emergência.

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

O Orçamento em si, repleto de medidas inqualificáveis e injustas, os apelos de aprovação feitos à oposição sempre de pedra na mão e um ar "tasqueiro" de desafio, a chantagem permanente, o tom intimidatório e os insultos demonstram uma coisa: o Primeiro-Ministro quer tanto ver este orçamento aprovado como eu quero vê-lo ganhar as próximas legislativas.

Sócrates não pode manifestar abertamente este secreto desejo. Estaria a ser verdadeiro, o que seria inadmissível e contranatura. A irresponsabilidade é tal que prefere salvaguardar a face no dia da despedida, munido de um bode expiatório orçamental laranja, a ter de assumir os erros de gestão que cometeu desde o primeiro dia em que se sentou em São Bento. E foram milhões de erros. Esta governação é a pior de sempre da história da República portuguesa. O maior ataque à classe média de que há memória.

As pessoas de bem, as que efectivamente se preocupam com a coisa e causas públicas e não só com o próprio bem-estar, sem aquecerem poleiros de boys & girls, sem viverem amedrontadas com a indisposição dos donos (banqueiros) como lacaios incapazes ou com a inquietude nos clientes habituais de negócios "bronzeados", estranhas parcerias e concessões, contratos maquilhados em escritórios de advogados 5-à-Sec, obviamente defendem o que julgam ser o melhor para o país. Seja este "melhor" a aprovação ou não deste Orçamento. Não interessa, são honestas de pensamento.

Mas aconteça o que acontecer, uma verdade é indesmentível: José Sócrates ganhou esta guerra. Apontou baterias ao adversário e centrou nele a responsabilidade de um débil e desequilibrado OE vir ou não a ser aprovado. Criou-se a ilusão de que todos devemos dinheiro ao Estado. Ouço falar um Ministro e tiro logo 5 euros do bolso para lhe dar. A perda de direitos tornou-se trivial. Subidas de impostos banais. Cortes todos os dias. Vivemos uma mentira. Vamos ao supermercado e somos assaltados pela máquina registadora: 23% de IVA ou levas um tiro nas fuças.

Velhos babões e anafados, enroscados em pensões chorudas incutem-nos a ideia de que somos nós quem tem de pagar a crise. Que o governo sofredor é alheio ao que nos está a acontecer. Ide babar longe. Que os mercados internacionais são a causa disto tudo. Que o governo tem feito um excelente trabalho. Que agora uns malandros estão a tentar impedi-lo de continuar a brilhante gestão, e que sem Orçamento serão "forçados" a abandonar o poder e a obra que sonharam para o país. Hipócritas. Ranho político. Assumam-se e assumam. Não fujam como ratos.

Ganhou ainda porque os portugueses desistiram. Ganhou porque já ninguém acredita em nada ou ninguém. Ganhou porque a maioria de nós perdeu a esperança. Ganhou porque secou tudo o que o rodeia. E, qual última estocada, ganhará se Pedro Passos Coelho chumbar o Orçamento. Sairá descansado e desrenponsabilizado, deixando um país ajoelhado e em agonia pelas costas. Pura cobardia.