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O português não sabe alcatroar

Há uma explicação para a grande maioria das cidades portuguesas parecerem autênticas homenagens em formato urbanístico ao queijo Emmental. É que em Portugal "alcatroa-se muito mal".

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

O português é um "bicho" que decididamente não sabe alcatroar. Não se controla. As ruas ora parecem o autódromo do Estoril ora se assemelham ao Mare Tranquillitatis em pleno solo Lunar. Não há meio-termo. Esta história que agora passo a contar, deliciosa mas reveladora, para além de verdadeira, fascinante e insólita ajuda a perceber a dimensão da coisa:

A Câmara Municipal de uma cidade portuguesa decidiu há algum tempo alcatroar uma movimentada e relevante rua. Quer pela dimensão, quer pelo tráfego que a atravessa, esta decisão ainda que tardia, foi obviamente do agrado de toda a população.

Pelo menos até vir alguém da TVcabo, companhia das águas, gás, vodafone, fibra óptica da MEO ou mesmo a Dona Adelaide que perdeu os brincos em 1978 e que tem a certeza que foi ali e esburacar tudo novamente sem que pelo meio haja um telefonema entre entidades, ou entre estas e a Dona Adelaide de forma a tentar conciliar trabalhos. Preferem fazê-lo em suaves prestações e cada um por si, esburacando trezentas vezes em vez de três em apenas meia dúzia de anos.

Mas até aqui foi tudo consensual. Procedeu-se à empreitada e a rua foi efectivamente alcatroada de lés a lés ficando tão lisa como as contas dos clientes do BPP nos dias que correm. O real problema começou quando um iluminado qualquer se lembrou, enquanto contemplava a bonita obra como um grande mestre contempla a sua criação, que faltava ali qualquer coisa. Algo diferente para além dos milhares de buracos completamente tapados. Mas o quê?

Pois é, os "artistas do alcatrão" entusiasmaram-se de tal forma que as tampas de saneamento tinham desaparecido. Não sobrou uma. Tudo tapadinho com alcatrão. Nem Salvador Dalí traçaria na tela tamanho cenário surrealista. O que fazer?

"Fácil!" Disse um mais desenrascado (discípulo de Vermeer provavelmente).No dia seguinte, vários funcionários, equipados a rigor com detectores de metais procederam ao resgate das tampas entretanto engolidas pelo alcatrão. Foi vê-los todo o dia para trás e para a frente com a maquineta a apitar cada vez que achavam uma. E lá vinha outro desgraçado de picareta em riste para salvar as tampas do invulgar mergulho a que tinham sido submetidas.

Só visto e apenas explicável porque os trabalhadores camarários estão tão pouco habituados a alcatroar o que quer que seja de uma vez só que já não se recordam ao certo como se faz e o que devem efectivamente alcatroar. E principalmente o que não se deve em caso algum alcatroar.

Desta forma, alcatroam não só a estrada mas igualmente tampas de saneamento, carros, postes de iluminação, gatos, polícias municipais, arrumadores, cães e um ou outro colega que esteja mais distraído a olhar para as meninas que passam.

No final o piso até pode parecer de facto o do autódromo do Estoril. O pior é o resto. Portugal alcatroado no seu melhor.