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Cabala: a religião dos suspeitos de corrupção

Fala-se na possibilidade de alguém estar envolvido em esquemas de corrupção e a Kabbalah ganha automaticamente um novo seguidor. Os cabalistas são cada vez em maior número em Portugal.

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Os ensinamentos que regem a vida de Madonna e que esta deu a conhecer ao mundo ameaçam tornar-se um caso sério em Portugal, conquistando seguidores em sectores tão distantes, ou talvez não, como os da política, futebol, dos negócios e da banca e até algum pessoal da marinha e consulados. Um fenómeno.

"Cabala (também Kabbalah, Qabbala, cabbala, cabbalah, kabala, kabalah, kabbala) é uma sabedoria que investiga a natureza divina" e tem como finalidade o "eliminar toda forma de caos, dor e sofrimento". Portanto não será bem uma religião. É mais um estado de espírito. Uma forma de estar na vida. Curioso.

Entende-se. Isto é gente que sofre muito. Deve ser uma dor de cabeça gerir tantos milhões de origem duvidosa e ainda fazer ar de desentendido e ofendido quando alguém vem questionar sobre o assunto.

"Cabala!" gritam eles. E pronto. Mais um desgraçado cabalista que só estava a tentar "eliminar o caos e a dor" sossegado no seu canto e tinham que vir prolonga-lhe o sofrimento. Anda aqui uma pessoa a tentar praticar o bem e é logo rotulado. Parece impossível.

"Corrupto? Eu? Assinei um contrato de prestação de serviços meu caro amigo!" E assim ficamos todos a saber que é possível ser-se corrupto e ganhar muito dinheiro com isso desde que se tenha um contrato de prestação de serviços a servir de álibi.

Funciona como aquele cartão do monopólio, o "Out of Jail Free card". Quando há problemas, mostra-se o cartão e pode-se continuar a jogar livremente, sem se correr o risco de ir bater com os costados na barra de um Tribunal ou nas grades de um Estabelecimento Prisional. O contrato até pode dizer apenas: " Atesta-se que este senhor não é corrupto. É um prestador honrado e lavadinho que só quer praticar o bem e aliviar a dor".

São doentes. Toxicodependentes. Agarrados que precisam de repor com regularidade alguma ordem no caos, aliviando desta forma a dor e o sofrimento. Se ganham alguma coisa com isso melhor, porque no fundo só estão a praticar o bem e a defender o interesse público.

Mas o Ministério (também ele Público) fica de mãos atadas. Não pode acusar um trabalhador honesto só porque ele decidiu seguir a desonesta e paralela carreira da corrupção. Está tudo dentro da legalidade. Logo, intocável.

E assim nasce um novo cabalista. Com contrato e tudo. Parabéns. A cabala é que está a dar. E está a dar muito. Mas só a alguns.