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Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Alice no país das calhandrices

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A Alice torna-se verdadeiramente perigosa quando começa a ser o comum, a ser o país, a forma de ser e estar, de agir e de ver, de encarar o futuro.

Alice nasceu no interior perdido do Portugal profundo. Cresceu a ver meninos de famílias abastadas da aldeia não se privarem de terem, sem esforço, aquilo que não ousava pedir. Sonhava com a igualdade de oportunidades e justiça social. Uma vida melhor. Nunca foi inteligente. A esperteza nasceu-lhe da necessidade e depressa aprendeu a usá-la, aguçada.

Um sorriso na padaria significava a diferença entre um ou dois papos-secos ao lanche. Uma conversa com as beatas à porta da Igreja dava-lhe acesso a um nicho de informações. Guardar para usar. Cresceu, cresceu-lhe o ego e o vício de o ver alimentado constantemente. Queria o que não tivera. A todo o custo. Os ideais puros foram desaparecendo até se esbaterem no muro das desilusões. Alice mudou de caminho. Alice perdeu-se.

As injustiças que passara haviam-na tornado imune ao sentimento de culpa. Era órfã da moral e imoral nos pensamentos. Profundamente revoltada. Fria. Distante. Precocemente maquiavélica. Alice foi fraca aluna. Alguns professores e colegas achavam-na desligada, burra, tonta. Revoltou-se ainda mais. A crueldade de alguns acabou por endurecer e encrespar a sua débil e instável personalidade. Fechou-se. "Um dia todos irão conhecer Alice", pensava.

Fez o Liceu com a mediania que a caracterizava e enveredou pela política sem manifestar qualquer talento ou aptidão. Entre muitos à espera de um lugar para se aquecer nas pedras mornas da velha República e teenager Democracia. E ali ficou. Quieta e inquieta. Até que alguém estendeu a mão e a puxou para o hall das pessoas com futuro. As pessoas moldáveis. É sempre assim. Alice tirou o curso superior sem esforço ou mérito. Soube rodear-se de quem a ajudasse. Conveniências. Amizade, poucas, quase nenhumas. Tudo interesse. Oportunidade.

Subiu no partido devagar. Um camaleão a trepar a árvore. Tomou-lhe os diferentes tons à passagem. Não ser visto mas especialmente notado. O ignorante serviçal, calado e discreto chega longe. A recompensa dos pobres de espírito. Aos poucos. Passo a passo. Até ao topo. Ao sol. Aprendeu a palavra esperança e passou a usá-la. Acreditar. Não é preciso fazer grande coisa. Basta acreditar. Ortodoxias fechadas em gavetas escuras. Perdiam-se as chaves. Tudo surgia, e Alice parecia estar sempre no sítio certo e rodeada das pessoas capazes, munidas dos cordéis que mexiam o tonto sistema. Adaptar-se ao Ambiente era fácil. Chegava a parecer natural. Incrível. Alice brilhava finalmente.

Do sol ao poder foi um passo. Alice começou a adorar o espelho e o espelho a adorá-la. Construiu e cultiva a imagem como ninguém. Ouvir-se falar mais do que ouvir quem precisa. Ao acreditar em si mesma, ao agir como se acreditasse, mesmo destituída de um pingo de sinceridade e abraçada ao cinismo, Alice consegue reunir consenso, e apoio. Tudo aos seus pés. Todos ao seu alcance. Poder. Permanece até hoje igual a si própria. Proprietária exclusiva da razão.

Quando atacada Alice é humilde, recatada e pura. Cândida. Digna. Incapaz de usar o poder de modo ilegítimo ou dele servir-se de forma imprópria. Teatralmente indignada por fora. Roída de raiva, jorra vingança por dentro. Tudo boatos. Mentiras. Fumaça. Calhandrices de gente invejosa. Esguia, Alice esquiva-se às balas como ninguém. Escorrega pelos dedos da justiça podre que ela própria faz desacreditar, dia após dia. A fumaça leva-a o vento. O fogo destrói as provas. As pessoas arredam-se ou são arredadas. Uma a uma. As inconveniências, afastadas.

Prossegue, altiva, sobranceira. Aparentemente intocável. Inimputável. Alice não é uma pessoa física. Ou até pode ser. Podem ser várias. Mas Alice torna-se verdadeiramente perigosa quando começa a ser o comum, a ser o país, a forma de ser e estar, de agir e de ver, de encarar o futuro. A Alice não é Portugal. Portugal não pode ser a Alice. Chega. Basta de Alice.

 Nota: este texto vai integrar a 1ª edição (Novembro) da revista mensal "Diz que Disse" onde vou manter a rubrica "Bater no cego até ele ver" a convite do Tiago Cruz Cação. Autores participantes: Alberto Oliveira, Cláudio Cardoso, Catarina Moleiro, Dora Dinis, Fernando Almeida, Fernando Alvim, Fernando Gonçalves, José Dinis, Manuel da Silva Ramos, Manuel João Vieira, Nuno Ávila, Pedro Eça, Pedro Sebastião, Rogério Lourenço, Tiago Cação, Tiago Mesquita e Tiago Salazar.