Siga-nos

Perfil

Expresso

100 reféns

A arte de bem rotular: do "parolo" à "bimba", da "cusca" ao "chulo da bola"

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Em Portugal, rotular é um dos desportos favoritos. É algo que nasce connosco, que adoramos fazer, e que ao longo da vida vamos apurando, no conteúdo e na forma, à medida que nos vamos apercebendo de como funciona o mundo - rotulamos. E assim vamos agrupando, consoante pequenas características, detalhes físicos, sotaques, termos utilizados, formas de andar, de vestir, de agir, de atender o telefone, de rir, chorar etc.

Em Cabul abatem-se pessoas, em Portugal rotulam-se. Ambas com a mesma velocidade, "naturalidade" e impiedade. Cada um de nós tem uma espécie de máquina de etiquetar mental que avalia e cola autocolantes nas pessoas com quem vamos contactando e tratamos de rotular, sem que a mesma se aperceba que dois segundos depois de abrir a boca já levou o carimbo. Mas nesta arte temos para todos os gostos: "cusca", "histérica", "cagão", "chulo da bola", "azeiteiro", "interesseiro", "parolo", "bichona", "bimba"," tia", "vaca"," devoradora de homens", "gigolo", "proxeneta", "alcoviteira", "palhaço", "machista", "xenófobo", "racista", "fascista" e por aí fora...Dez segundos chegam para uma avaliação profunda da personalidade alheia. Podermos estar a contactar com um dos melhores seres humanos que alguma vez pisou o planeta, repleto de qualidades, mas conseguimos sempre apontar-lhe um defeito. Se não tiver, inventa-se. A capacidade de rotular de um português é algo só comparável a alguns feitos da NASA fora da orbita terrestre. Para procurar usamos o Google, para rotular qualquer português serve.

Funciona mais ou menos desta forma, à imagem filme Rounders: se numa mesa se sentarem quatro pessoas e ao fim de dois minutos três delas tiverem um rótulo e a outra se estiver a rir, já se sabe quem é o português. É a injustiça do gatilho mental. A rotular Portugal triunfava qualquer batalha que travasse. As maiores potências bélicas mundiais capitulariam aos pés dos impiedosos batalhões de rotuladores portugueses. Não é difícil imaginar o espadaúdo D. Afonso Henrique gritar: "matem essas bichas mouras todas!". Estou a ver caças americanos a bombardearem Belém e os "rotuladores" descansados cá em baixo a comer um pastelinho carregado de canela e a comentarem "olha estes tontos não sabem que ali na Torre não mora ninguém". " Olha-me estes burros, agora acertaram no estádio. Ó tolos: aquilo já tem buracos suficientes nas contas, deixam os rapazes em paz". "Acertem ali mais ao lado, naquele palácio cor-de-rosa. Esse é que precisava de uns balázios valentes para ver se o dono acorda!" 

Quero com isto dizer que se a capacidade que temos de produzir e exportar fosse apenas um décimo da que temos de rotular, seriamos, sem qualquer sombra de dúvida, uma das maiores potências da economia mundial. 

 

Na página oficial do 100 Reféns no Facebook juntam-se pessoas que gostam e que não gostam, que odeiam e que adoram, que veneram e que detestam, mas que não são indiferentes a este blogue do Expresso. Dê um passo e junte-se a nós. Clique no link para aceder à página do 100 Reféns no Facebook.