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Expresso

À beira mar plantado

Michael Seufert

Taxi Uber alles?

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Foi notícia no início desta semana um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa que dá razão a uma providência cautelar da ANTRAL contra a operação da Uber em Portugal. A Uber é uma empresa que por via duma aplicação de smartphone facilita o encontro entre carros com motorista e clientes, permitidno o encontro de vontades juntando a isso ainda um sistema de avaliação do serviço, antecipação do valor estimado a pagar e pagamento por cartão de crédito na aplicação, mesmo que a carteira tenha ficado em casa. O acórdão mostra que falta fazer muito em Portugal para trazer o país para o século XXI.

Quem ande de táxis em Portugal ou lá fora - e eu ando - sabe bem o que falta no serviço: quando se chama um táxi não se sabe quem vem e como vem. Motoristas mal-educados, carros com cheiro a tabaco ou pior, ou aquele motorista que na semana passada já nos tinha tratado mal. Tudo pode acontecer. 

Se o percurso for curto, a probabilidade de ouvirmos um recado - ou dez - é alta. Afinal, que é isso de usar um táxi para ir de Campanhã ao Dragão? 

O preço da corrida é sempre um mistério. Uma prima minha, em Lisboa, pagou 1,6€ por mala à saída do aeroporto. Foi enganada, claro, mas só percebeu quando me contou. Ser estrangeira custou-lhe quase cinco euros para um burlão.

A falta de troco, ou dum simples terminal de multibanco, pode transformar  o momento em que se quer saltar do táxi, na demanda dum café que troque ao motorista uma nota de dez em duas de cinco.

Por fim, a emissão de facturas em papel preenchido à mão são uma recordação do século passado que não conheço de mais nenhum país da Europa. 

Generalizações? Certamente. O leitor avaliará da sua experiência. Mas como impedir que, por poucos que seja , estes casos aconteçam?

Para desincentivar motoristas mal-encarados ou até burlões, o ideal seria um sistema de avaliação dos motoristas. Cada cliente no fim da corrida poderia classificar a sua experiência, essa depois tornada visível para o próximo cliente. 

Não é propriamente difícil de, identificado o destino e uma previsão para a duração da corrida, um sistema automático apresentar uma previsão do preço. Esse depois, ser pago por meios electrónicos é trivial e normal no século XXI. O mesmo para a emissão de factura. 

O Uber, em que tudo isto é muito simples, funciona como esperaríamos dum serviço do século XXI. A empresa, e eu também, confesso, estava convencida que operava em Portugal de forma legal pois tinha montado o seu serviço em cima de carros de transporte de passageiro já licenciados: táxis de turismo e rent-a-car com motorista - não tinha portanto sequer activado uma funcionalidade  que usa no estrangeiro de permitir a qualquer motorista inscrever-se no serviço com o seu carro particular. Infelizmente o tribunal - ainda que num acórdão curioso, que não ouviu a empresa e onde assume coisas que não são reais como o não-pagamento de facturas, que é muito mais cómodo e de fácil rastreio electrónico pelas autoridades comparado com o táxi - veio agora dizer que não. É uma boa oportunidade para mudar a lei.

Entretanto os passageiros ficam privados dum serviço que abre a concorrência e que só vingaria se fosse de qualidade. A ANTRAL cumpre o seu papel corporativo, mas não parece interessada em nada que vá ao encontro das expectativas dos clientes dos séc. XXI. E se se percebe a crítica de que aos táxis é pedido isto e aquilo em taxas, alvarás e outras exigências, então não se percebem duas coisas: porque não combate a corporação essas burocracias? Provavelmente porque a entrada de mais operadores no mercado ataca os interesses instalados. Por fim, em que é que essas exigências limitam o serviço de táxi de ser prestado com qualidade como a que conhecemos da Uber, nem que seja no estrangeiro?