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Expresso

À beira mar plantado

O mistério dos bustos aparecidos

Na semana que se seguiu ao duelo Seguro-Costa, a esquerda à esquerda do PS, habilmente, encontrou uma forma de capturar os holofotes mediáticos. Qual mistério de Agatha Christie levantou-se ontem uma magna questão no plenário da Assembleia da República: "Sr. Presidente [presidia Guilherme Silva], que bustos são aqueles nos corredores do Parlamento?", indagou o líder parlamentar do PCP. "É inadmissível o que se passa", rematou o do Bloco. "Queríamos repetir o que o PCP disse", prosseguiram Os Verdes. O mistério estava instalado. O novelo desfazer-se-ia lentamente e passadas 12 horas é possível avançar com uma solução.

Sente-se caro leitor, o texto hoje não é para estômagos sensíveis. Não é para estômagos sensíveis ao bom senso, claro.



No final de Junho o Parlamento recebeu uma carta da Câmara Municipal de Barcelos. Uma exposição dum artista local retratava em bustos de barro os Presidentes da República, passados cem anos da implantação da dita, e a Câmara considerava interessante e simpático que o Parlamento se associasse. Haveria interesse em receber a exposição em Lisboa, na casa da democracia? A missiva calhou a quem trata de assuntos de Cultura: a 8a Comissão. Enviado por e-mail o catálogo da exposição aos deputados da comissão, duma reunião para a outra se deu um parecer à senhora Presidente da AR: "nada a opôr, venham os bustos de Barcelos, sempre não são galos e vão se variando as cristas" - ou alguma coisa assim.



Rápida progressão nos eventos: Verão molhado, águas frias, Lopetegui com dez onzes iniciais em tantos jogos, primárias no PS. Chegado Outubro, chega a inauguração da exposição. Na véspera, quarta-feira dia 11, os bustos são montados no corredor do Parlamento. Notável pormenor: estão todos os Presidentes representados! Ao contrário dos livros de Astérix, nem um resiste. Até Cavaco Silva lá se encontra: 18 bem contados. A consternação é geral: 

"Até o Sidónio?" 

"Até o Sidónio!"

"Ah, mas decerto se esqueceram do Craveiro Lopes? Nem o Salazar gostava dele!"

"Não, pá, até o Craveiro lá está"

"Estão todos, portanto!"

"Todos."



Reparem o leitor no compreensível choque: Portugal, século XXI, um artista de Barcelos dedica uma exposição aos Presidentes da República... E não se esquece de nenhum! Podia lá ser?

Podia e PCP, BE e Verdes levaram a mal. "Tirem-se cinco!" "Não se pode branquear a história." "Não sabíamos de nada."

Bem, quanto ao último ponto as mensagens electrónicas trocadas entre os deputados servem de prova: o catálogo tinha circulado entre todos, não há desculpa. Assinaturas de presença mostravam ainda que todos os partidos andariam informados presencialmente sobre a exposição.



Sobre o branqueamento da história, convenhamos que os reclamantes têm mais experiência que nós. Estaline inaugurara a arte de esconder compagnons de route caídos em desgraça das fotos do regime soviético. Quem ia para o Gulag não aparecia ao lado do camarada Zé. Fácil e eficaz que os soviéticos podiam não saber dar de comer ao povo, mas tinham jeito com o pincel. Não se devia portanto fazer o mesmo com os presidentes que estiveram com os maus? Afinal, o 25 de Abril acabara com a Censura Prévia. Está na altura de ocupar a lacuna deixada com uma Censura Posterior, não é assim?

Haverá então uma condição a verificar: está-se a deixar de fora das explicações que estes cinco tinham chegado ao poder em condições nada condizentes com a Democracia? Por outras palavras: branqueava-se a Segunda República em Barcelos?

Bem, o título da secção destes cinco senhores é algo dúbio: "Ditadura Militar e Estado Novo" - estado é mau, a maioria das pessoas sabe, mas "Novo" soa a bom e ditadura tem muitas sílabas, pode não se perceber. Adiante, e lendo as descrições que acompanham os bustos: de Mendes Cabeçadas lê-se que foi um dos principais organizadores do Golpe de 28 de Maio, de Carmona que chamou Salazar para o governo e de Thomaz, p.ex., que ganhou ao General-Sem-Medo graças à fraude eleitoral e à repressão policial. 

Eu não percebo nada de história, mas esse Salazar era do maus, não era? Isto de o chamar para o governo cheira a esturro. 



O que se verifica, afinal, era que todos os Presidentes estão acompanhados de competente nota biográfica. O que aliás é útil. O Sidónio reconhece-se bem pelo bigode, o Spínola pelo monóculo. A partir daí torna-se difícil. Mário Soares ficou sem bochecas e a figura de Manuel de Arriaga - juro! - encontro-o mais depressa nalguns álbuns do Tintin do que nos livors de história.

Ironicamente o Marechal Carmona está a cara chapada dum jovem Estaline. Se calhar vem daí o incómodo da nossa esquerda democrática. Confundir o homem que deu a voz a Salazar com o que limpou a tosse a Trotsky não se faz!