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Expresso

À beira mar plantado

Da guerra centenária

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Estarmos a acompanhar, cem anos depois, o desenrolar da Primeira Grande Guerra, como aqui assinalei, presta-se a que possamos destacar alguns momentos desse sangrento conflito. Fez, por exemplo, no passado dia 22 cem anos que a Austria-Hungria sofreu a sua mais pesada derrota da guerra, derrota que de facto, a fez passar a depender definitiva e absolutamente da assistência do Império Germânico. Falo da rendição da cidade-fortaleza de Przemysl às forças russas.



O conceito de cidade-fortaleza está desparecido dos dias modernos mas até à segunda guerra mundial (com Königsberg como exemplo mais emblemático) eram pontos estratégicos de importância máxima: cidades altamente fortificadas, mais ou menos imunes à artilharia (que no entanto, neste primeiro conflito mundial se desenvolveu fabulosamente, também para reduzir esta "imunidade") permitiam ser facilmente defendidas, impedindo o inimigo de as tomar ao mesmo tempo concentrando forças adversárias que não podiam avançar antes de ultrapassar esse obstáculo sempre bem guarnecido. Refira-se a título de outro exemplo, a fortaleza de Namur, na Bélgica, com o seu complexo defensivo, que nos dois conlfitos-mor do século passado muitas dores de cabeça prometia aos comandantes alemães. Acabaria por cair na primeira pela força da artilharia e na segunda por ter sido completamente ultrapassada por uma frente que avançava a velocidades nunca vistas.

Prezemylsl, hoje polaca à altura austro-húngara (província da Galícia), encontra-se num ponto estratégico para o avanço que na altura as força russas pretendiam conseguir em direcção à Silésia alemã - zona altamente industrializada e muito importante para o esforço de guerra - e em direcção aos Cárpatos e ao coração da Húngria. E de facto, avanços iniciais das forças do Czar colocaram a cidade atrás da linha da frente a partir do fim de Setembro de 1914. A opção austro-húngara de deixar a cidade guarnecida com mais de 120 000 homens pretendia garantir que os russos não avançariam sem concentrar tropas em torno da fortaleza. De facto isso foi conseguido, mas tirando alguns dias nesse Outono, o alívio por via de avanços do exército dos Habsburgos nunca se verificou e a cidade ficou meses sem qualquer alívio. Bem defendidos, os austro-húngaros não se venderam baratos provocando baixas ordem dos 115 000 russos, mas as condições duma cidade que ainda concentrava milhares de civis a mais das forças militares acabaram por levar a estratégia russa a bom porto: a fortaleza render-se-ia por falta de abastecimento ao mesmo tempo que do exterior os seus camaradas tentavam, em vão, levantar o cerco sofrendo duras perdas no primeiro inverno da guerra.

Como habitual nesta guerra, o estatuto multi-nacional do império austro-húngaro levava a factos curiosos. As ordens de batalha, por exemplo, eram regulamente redigidas em 15 (quinze!) línguas, para serem entendidas por qualquer soldado, independentemente da sua origem no interior do império. Ao mesmo tempo, o tempo passado no interior do cerco aumentava a desconfiança e o conflito entre as várias etnias ou nacionalidades; para não falar dos civis de entre os quais, comme d'habitude, os judeus se destacavam como alvo da conflitualidade antes e pós-cerco, aliás a ocupação russa institui, de facto, a perseguição anti-semita.

A 22 de Março render-se-iam 117 000 homens. O sacrifício que susteram foi praticamente em vão: no Verão desse ano, forças alemãs retomariam a fortaleza e, como se sabe, graças aos momentos revolucionários, a Rússia capitularia em 1917. Para o império austro-húngaro, no entanto, a conjugação do efeito psicológico com o efeito militar seria devastador, tornando-se inteiramente dependente do exército alemão para operar nos Balcãs e no teatro Oriental. O fim do império começaria, também, com a Galicia Oriental a juntar-se à recém-reformada Polónia em 1918. 

Nota final



Mais ou menos nos mesmos dias preparavam-se na entrada para os Dardanelos, mais concretamente em Galipoli, as operações do maior desastre militar aliado nesta guerra. O desembarque frustrado de tropas neste acesso a Constantinopla, capital do império Otomano, seria uma perda muito significativa para as forças do Império Britânico que levaria mesmo ao afastamento de Churchill do comando da Royal Navy. Entre os defensores encontrava-se um jovem turco de nome Mustafá Kemal.

Uma história que fica para contar noutro dia.