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Expresso

À beira mar plantado

Correspondência

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Caro colega,

 

Espero que se encontre bem. Sei, leio o todos os dias, que as coisas aí não estão fáceis. Fique com a minha solidariedade e honesta esperança que para si e em particular para o povo grego as coisas se resolvam pela melhor. Com a mesma honestidade lhe digo que acho que o caminho do actual governo não é o mais acertado e que pode até acabar com tudo pior do que no início do seu mandato. Mas isso são coisas da Democracia e o povo grego escolheu e saberá viver com o que escolheu.

Tenho no entanto lido algumas coisas sobre como vossa excelência e os restantes colegas deputados exercem o seu mandato e deixe-me dizer que não tem de ter medo de mudar algumas coisas. Cá em Portugal vivemos bem e somos bons deputados (uns mais que outros, claro) sem alguns salamaleques que vocês têm. Deixe-me dar alguns exemplos.

Cá em Portugal não temos reforma ao fim de 8 anos de mandato, como aí. Nem ao fim de 8 nem ao fim de nenhuns, já agora. Houve tempos em que assim foi, mas já há muitos anos que os deputados portugueses descontam normalmente para a Segurança Social e quando chegarem à idade de reforma os anos que passaram no Parlamento são contados para a reforma a que têm direito.

Aparentemente, na Grécia, os deputados recebem uma série de apetrechos para o seu gabinete (dois computadores, uma impressora e uma multifunções, etc, que são comprados pelo Parlamento mas ficam propriedade dos deputados), além de 4 secretárias e um assessor ou 3 secretárias. Isto para além de entre 700€ e 1000€ para despesas com o gabinete. Deixe-me garantir que cá, o montante que os Grupos Parlamentares recebem (como aí, estes valores aqui são para lá disso) cobre as despesas com pessoal, assessores, etc e que os deputados individualmente não recebem mais nada. Mais: o material que o Parlamento põe à nossa disposição (computador portátil e computador e telefone fixos, apenas) são, naturalmente, património dos contribuintes e não dos deputados. E fiquei com uma dúvida, daquilo que li: porque é que precisam os deputados gregos de quatro linhas fixas de telefone? Já agora, a generalidade dos deputados portugueses não têm um gabinete individual, nem uma secretária ou um assessor particular. Eu por exemplo partillho o gabinete com outros dois colegas e a secretária com uns cinco ou seis. Garanto-lhe que não falto um compromisso por isso.

Li também que em termos de transportes, os meus colegas gregos viajam de graça de comboio, autocarro e barco.e 52 vezes por ano de avião para os deputados de fora de Atenas. Em primeira classe, claro, e com direito a bilhete para o conjuge. Além disso podem gastar até 1500€/mês para o aluguer dum automóvel e recebem ainda em despesas de transportes até 810€ (não percebo bem o que é que ainda sobra, talvez um investimento mensal em bicicletas) por mês. Meu caro colega, os deputados portugueses recebem um valor ao quilómetro para as deslocações casa-parlamento-casa na ordem de grandeza das suas despesas com transportes. Mas depois pagam mesmo esses transportes: comboios, carro, avião, seja o que for. Tirando alguns cargos protocolares, a generalidade dos deputados portugueses não tem nem motorista, nem automóvel do Parlamento - ou pago pelo Parlamento.

Os dados das informações que obtive são de 2011 (com as respectivas normas legais referenciadas) e de 2012. É natural que algumas coisas já tenham mudado, mas li ainda ontem que só cinco dos deputados do Syriza aceitaram prescindir do automóvel que lhes é colocado à disposição. Não está mal para um partido que prometeu aproximar as elites ao povo. Ao mesmo tempo, compreenderá como é que um português (deputado ou não, mas é este que lhe lê) a quem os gregos pedem apoio para as suas políticas - e apoio neste caso também é dinheiro - lê algumas destas coisas. Podem nem valer muita coisa, mas permita-me uma referência à Roma Antiga: à mulher de César não basta ser séria... 

Olhe, boa sorte. Aceite os meus cumprimentos. Cá em Portugal acreditamos sempre que as coisas se resolvem: a malta desenrasca-se. Duma ou doutra forma acredito que isso também se aplica à Grécia.

 

Um grande abraço e boa sorte,

 

Michael Seufert