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Expresso

Seis dias em junho

O início de Junho assinala a efeméride de duas das mais incríveis operações militares de sempre: o desembarque dos Aliados na Normandia e a Guerra dos Seis Dias no Médio Oriente. Já aqui escrevi sobre a primeira (e muito mais haveria a escrever) e faz este mês 50 anos que aconteceu a segunda.

A Guerra dos Seis Dias mudaria o mapa do Médio Oriente definido como resultado da Guerra da Independência, de 1948. Então, num período que se sucedeu ao abandono das forças britânicas do território que até láadministravam (por sua vez após a uma longa administração Turca Otomana), forças israelitas e árabes lutaram pelo controlo dum território que supostamente deveriam dividir por decisão das jovens Nações Unidas. Os primeiros aceitaram o mapa proposto, os segundos não, e acabaria por ser a guerra a desenhá-lo

Em 1967 as relações entre estados vizinhos estavam longe de ser pacíficas: Egípcios ocupavam o território a Sul e a Ocidente de Israel, a Jordânia (então Transjordânia) encontrava-se a Leste, Síria e o Líbano a Norte-Nordeste e as tensões eram constantes. O Egipto acabaria por tomar as decisões que levariam à guerra: Nasser expulsa as tropas da ONU do Sinai e da Faixa de Gaza a 19 de Maio e dias depois declararia, num acto de guerra, o estreito de Tiran encerrado à navegação israelita. Assumindo o caminho para a guerra, em apenas mais um exemplo das sucessivas declarações de responsáveis árabes, o presidente egípcio declararia como objectivo imediato a destruição de Israel.

Afinal, em apenas seis dias o estado judeu mostraria que estava para ficar, alargando ainda fronteiras até ao Suez e o Jordão e ocupando os Montes Golãs de inestimável importância estratégica.

Os números são impressionantes: dum total disponível de 264.000 homens, Israel colocou 100.000 no terreno. Os aliados árabes teriam uma disponibilidade de 547.000, dos quais colocaram 240.000. Em termo de baixas, e face à disparidade de meios, a comparação é ainda mais impressionante: cerca de 800 mortos do lado israelita, para mais de 21.000 mortos do lado árabe. Israel afirmava-se como uma potência que não se deixaria aniquilar, mesmo que rodeada de inimigos de morte.

Algumas operações, nomeadamente as batalhas de tanques no deserto do Sinai, em parte comandados pelo general Sharon, marcaram a história militar. A libertação de Jerusálem (que em 1948 ficara sob ocupação Jordana, o que levaria à destruição do bairro judeu e à interdição do acesso ao Muro das Lamentações), significou a abertura da Cidade Santa a todos os cultos, conforme perdura até aos dias de hoje. E, lá está, um mapa novo emergiria.

Anos depois, já após a Guerra do Yom Kippur em 1973, Israel conseguiria assinar acordos de paz com o Egipto (Camp David, em 1978, acordo que levaria à expulsão do Egipto da Liga Árabe) e a Jordânia (em 1994), países que deixariam de reclamar para si os territórios da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, respectivamente, com Israel a devolver a Península do Sinai ao Egipto e a reconhecer a OLP de Arafat. Em 2005 Israel concluiria a evacuação de toda a população civil e militar de Gaza, adiando igual movimento na Cisjordânia para depois dum acordo de paz com as autoridades palestinianas, até hoje.

Mas olhando para a história, há esperança. É extraordinário como inimigos de morte conseguiram ultrapassar ódios irracionais e homicidas para se tornarem parceiros. Em 1967 isso parecia impossível para quem ouvisse Rádio Cairo ou a retórica hashemita (muito diferente da práctica, diga-se). Tudo começou com seis dias em Junho, faz estes dias 50 anos.