Siga-nos

Perfil

Expresso

Da democracia na Europa

O referendo turco do passado dia 16 marcou uma mudança radical no país de Ataturk. Aliás, a Turquia do século XXI passou oficialmente a deixar de ser a Turquia do Pai Dos Turcos. É pena, mas podemos tirar alugmas lições.

Com a aprovação – duvidosa, diga-se, quer quanto à liberdade em que o processo foi organizado, quer quanto ao processo eleitoral e ao resultado em si – dos pedidos do partido do Presidente, este passa a concentrar em si um poder que nenhuma instituição da Turquia terá mandato para controlar devidamente. Recorde-se ainda que este é o Presidente que tem levado a Turquia a reconciliar-se com o islamismo (o political Islam) terminando com quase um século de Turquia secular.

Os recentes acontecimentos mostram bem que a Democracia não se esgota no acto de votar. A forma de escolher os nossos representantes é certamente fundamental numa Democracia, bem como a possibilidade de ouvir os cidadãos para outros fins, mas uma Democracia deixa de o ser se abdicar de determinados princípios basilares como a separação de poderes, o rule of law ou a separação entre política e religião. A Turquia e a Venezuela (que quarta-feira teve o povo nas ruas a reclamar exactamente o regresso das condições democráticas) mostram que mesmo no Século XXI o caminho das Democracias não é de um só sentido. E que muitas vezes o voto pode ser instrumental no trilhar de caminhos totalitários.

O caso turco serve ainda para outro alerta: muitas mesas de voto estavam localizadas em países europeus onde damos de barato que é impossível de acontecer o que aconteceu na Turquia. Os números da votação dessas mesas de voto podem servir de indicador que não é assim tão impossível. E isso merece reflexão.