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Expresso

100 anos de PREC russo

Passou quase despercebida a efeméride dos 100 anos da Revolução de Fevereiro. Compreende-se: a história é escrita pelos vencedores e os vencedores do PREC russo foram os bolcheviques – a revolução que depôs o Czar e impôs um Parlamento democrático é por isso esquecida. A revolução, em Outubro, que impôs os sovietes derrotados nas urnas, fica na memória. Mas, caramba, 100 anos não se fazem todos os anos.

Li já não sei onde que talvez Lenin tenha sido o pai do pós-verdade. Objectivamente os regimes comunistas, como Orwell tão bem descreveu, foram exímios em inventar realidades, mas poucos indivíduos conseguiram ser tão manipuladores e falsos na prossecução dos seus objectivos pessoais de poder quanto Lenin.

Lenin prometeu comida e entregou fome. Prometeu paz entre os povos e entregou subjugação dos seus vizinhos. Prometeu igualdade e entregou a Nomenklatura, casta de privilegiados militantes comunistas que tinham tudo o que faltava aos comuns. Ao mesmo tempo criou as estruturas de poder para que o povo nunca pudesse reclamar o seu próprio destino ou sequer manifestar o seu descontentamento com “o” partido. Bem antes da morte de Lenin e de ser sucedido por Estaline (que ao fim e ao cabo nunca enganou ninguém sendo temido pelos mais próximos) na URSS estava montada a mais impediosa, longa e assassina ditadura da modernidade Para Lenin os fins justificavam os meios e para manter o partido no poder não havia meios demasiado extremos. E é certo que sem ele, sem o demagogo-mor, o bolchevismo não triunfaria – o que, lendo o Marx das inevitabilidades históricas das massas, é irónico ao máximo.

Se cá em 75 não tivéssemos derrotado quem queria levar a Revolução para o patamar seguinte, talvez tivéssemos tido direito ao nosso Lenin. Felizmente ultrapassámos isso. Mas é algo triste que a Revolução de Fevereiro, contra o regime incapaz dos czares, seja esquecida para daqui a uns meses termos as televisões cheias da revolução que levou os russos a sonhar com os tempos do Romanov. Podemos ter uma ideia de como seria recordado o 25 de Abril se o de Novembro tivesse dado para o lado totalitário.