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Expresso

Trump: fogo não se combate com fogo

Vou me atirar às feras e dizer o que acho: muitos, talvez a maioria, dos que se estão a opor publicamente a Trump estão a fazer o seu jogo e a alimentar os seus apoiantes. E isso é dramático porque não há nada de repente que me pareça bom em alimentar um demagogo populista com tanto poder. E por outro lado também não acho que se deva ficar calado para não o fazer crescer.

Trump tem a seu favor um clima que se foi criando com o advento das tecnologias de informação: os media tradicionais hoje são escrutinados ao segundo, porque passámos a ter acesso directo às fontes, a fotos dos acontecimentos e a relatos em primeiro grau. Sem filtro, note-se, o que quer dizer que muitas vezes se mistura a fraude com o que nós achamos que são relatos fidedignos. E podemos fazer quinhentos congressos de jornalistas que isto continuará a ser verdade: os media hoje são ultrapassados pela direita e pela esquerda por relatos (verdadeiros e falsos) que permitem (consoante o relato na imprensa seja deficiente ou rigoroso) criar um clima de desconfiança com a imprensa. É que mesmo a imprensa honesta é feita por pessoas e essas, enganam-se. É humano.

Trump e muito do seu discurso floresce neste clima – e infelizmente por vezes com a razão de seu lado – porque há demasiadas imprecisões, demasiados compromissos com o espaço, demasiados títulos que não correspondem ao relatado que permitem a criação duma imagem de “eu, Trump, estou contra o sistema”. E repito com muita pena que de facto por vezes tem razão. No dia da tomada de posse, por exemplo, surgiram até na imprensa portuguesa fotos a comparar as multidões que assistiam à de Trump com as que foram ver Obama. As clareiras na tomada de posse de Trump eram evidentes e mostravam a imagem que se queria passar: pode ter ganho as eleições, mas não tem o povo consigo. Ora a manipulação era evidente: imagens ao vivo ou fotografias tiradas do palanque, mostravam um mall de Washington sem clareiras – independentemente de ter certamente tido menos pessoas a assistir, a cidade de D.C. não é propriamente fã de Trump. A imagem que se cria nem tem de ser verbalizada, porque cada curioso mais impressionável a tira de forma isolada: andam a criar uma imagem errada do homem.

O mesmo se diga das políticas de imigração. Trump tem um discurso em tudo idêntico ao do presidente Clinton no discurso do estado da nação, perante o Congresso, em 1995. O “muro” que se anuncia como de criação do presente, apenas completa o terço do que Clinton, Bush e Obama lhe legaram. O México, aparente vítima desse muro, guarda a tiro a sua fronteira sul. E tudo isto circula ao lado dos media tradicionais porque a imagem que a imprensa passa apenas tem como alvo o presidente Trump. Na Europa tira-se partido do facto de nos esquecermos que há vinte anos também as nossas fronteiras eram de arame e cimento. A memória é que é curta.

E cria-se novamente espaço para vitimização, quando não deveria haver espaço para tal. Aliás a proibição de viagem de estrangeiros de nacionais de sete países (e não de muçulmanos, como se lê por aí; detalhe que é importante), é um péssimo exemplo de culpa por associação e deve ser condenado. Pior: representa um acção executiva em matéria que deveria ser do Congresso, mas aí os que agora se queixam convém que mostrem se se queixaram de quando Obama usou o poder executivo para ultrapassar o seu Parlamento sempre que precisou. Porque não tenho dúvidas: lágrimas de crocodilo de quem a seu tempo deixou passar o mesmo abuso de meios porque o executor lhe era mais simpático também alimenta Trump e seus acólitos: os double standards tão em voga são muito fáceis de denunciar nesta era em que a informação passada está toda guardada e acessível.

E também aí muita da crítica a Trump perde toda a eficácia. A marcha das mulheres, duma forma inexplicável aplaudida pelo nosso Parlamento, foi liderada por uma defensora da lei islâmica. Que escreveu, aliás, que na Árabia Saudita é que se vivia bem, com saúde e educação gratuita – e que o pormenor de as mulheres não poderem conduzir era exagerado. Como é que alguém que quer defender as mulheres se pode associar a um pensamento destes e ser eleita organizadora da marcha das mulheres. A Arábia Saudita é literalmente o país no mundo onde as mulheres são mais mal-tratadas. Infelizmente só posso concluir que era mais forte o ódio a Trump do que os direitos das mulheres. E dessa conclusão, por sua vez, concluo que do outro lado também se desvalorizem os direitos das mulheres: “se é Trump que odeiam, protejamos Trump, das mulheres eles também não querem saber”.

Os demagogos, é esse o meu ponto, não se combatem com demagogia. No seu terreno são como os porcos: sujam-nos eficazmente e saem sempre a ganhar. Nos dias de hoje uma imprensa e comentadores que pareçam tomar partido contra Trump só o alimentam. Talvez pior, quando relatem sem querer um meio facto ou um facto mal explicado ou mal enquadrado, abrem as portas para a vitimização. Trump foi o candidato anti-sistema. Ganhou e ganhará enquanto mantiver esse estatuto. E ganhará enquanto conseguir manter a imagem de que a implicação é com ele por ser ele e que está a ser vítima de double standards. É que celebridades de Hollywood que vivem em condomínios fechados com guardas armados são maus embaixadores para falar de muros. A quem quer mesmo combater Trump impõe-se manter os standards elevados. Muito elevados. Ou então depois queixem-se.