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Expresso

Lesado do BES

Caro leitor, quanto dinheiro tem no banco à ordem e a prazo? E mais alguma coisa investida, tem? Poupou e investiu em fundos ou em acções? Cometeu uma loucura e meteu as poupanças duma vida num apartamento que sabe Deus a dor de cabeça que dá?

O meu desejo sincero é que tenha metido alguma coisa em papel comercial no BES, parece que era negócio garantido. Gostava de saber quanto património tem de ter um investidor a quem sobram 50000€ ou mais para gastar em papel comercial (nunca vou saber: o cheque que os contribuintes vão passar aos “lesados do BES” é passado ao portador), mas agora que estamos no mesmo barco posso finalmente dizer “fui lesado pelo BES”.

António Costa, sábio como só ele, veio dizer que após encontrada a “solução” (final?) para os lesados do BES está reforçada a confiança no sistema financeiro nacional. E eu que me sentia confiante por não ter o meu dinheiro em papel especulativo no BES, passei a confiar em que é irrelevante onde coloco o pouco de que disponho: se der para ganhar votos, aparecerá um idiota útil que colocará os contribuintes a entrar pela madeira dentro independentemente das escolhas que fazem com as suas poupanças.

E ganhei outra confiança: Ricardo Salgado sobreviveu tanto tempo na frente do “seu” banco porque era duma casta de infalíveis. Na banca portuguesa, quem sabia a quem ligar desenrascava-se sempre. Se Costa já fosse primeiro-ministro quando o BES precisava que fosse, os lesados do BES nunca teriam sido assunto. Teríamos sido, como acabámos por ser, todos nós lesado pelo BES. Mas não teríamos passado por esta maçada de ver uma instituição mal gerida falir e de ver um banqueiro fechar o “seu” banco porque era um mau bancário. Teríamos, com Costa no leme na altura, sido um país em que Salgado continuaria a receber pancadinhas nas costas do poder. Lesava-nos a todos e António Costa podia manter aquele seu sorriso satisfeito: haveria confiança no sistema financeiro.