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Expresso

É Soares fixe?

Na morte somos todos iguais, mas talvez possamos dizer de Mário Soares vivo que, tendo sido um grande estadista, “teve erros, claro”.

Ou por outra, talvez pudéssemos dizer isso, outrora. Infelizmente essa fórmula “grande [inserir o que foi] mas com erros” passou a partir deste fim de ano a ser eufemismo para “foi um ditador”, usada que foi por importante gente da nossa praça para falar desse erro feito homem que foi Fidel Castro. Ora associar Mário Soares a isto, mesmo que sem intenção, não é digno. Mário Soares cometeu erros, e pode e deve falar-se deles, mas não serão centrais na avaliação da sua vida.

Mas vem a propósito que tenho lido algumas entrevistas que Mário Soares deu nos anos setenta, depois da Revolução, ao Der Spiegel. A revista mantém os seus arquivos livremente acessíveis pela Internet e Soares teve frequentemente voz nas suas páginas. E é notável porque é o entrevistador – sempre diferente, suponho - da revista que na Alemanha está conotada à esquerda que tem de insistir com o deputado/ministro/líder partidário que tem na sua frente, nomeadamente sobre a descolonização. Não consegue aquele alemão, perceber como pensa o português resolver os problemas da população branca de Angola (“Poderá repetir-se aí o modelo da Rodésia?, pergunta -Lutaríamos com todas as nossas forças contra essa possibilidade, seria uma aventura insuportável para África e para o mundo”) como lidar com os retornados (“-O que acontecerá aos brancos que não quiserem ficar em África? -Tenho a certeza que em dois anos haverá mais brancos em Moçambique do que há agora”) ou como lidar com brancos que não queiram cooperar com a visão do então Ministros dos Negócios Estrangeiros (“Se necessário o exército português abrirá fogo sobre colonos brancos”). Lidas hoje as palavras de Soares parecem de alguém que não tinha a mínima noção do que andava a fazer – o jornalista parece pensar o mesmo. E sendo certo que, até usando uma expressão alemã, no fim das contas somos sempre mais espertos, a verdade é que a descolonização não foi de facto um momento brilhante da nossa história nem na de Soares e do PS. Mas foi exactamente na mesma altura da história que Soares se distinguiria pelo combate ao lado daqueles que se opuseram a que o comunismo fixasse pé – pela experiência seria até nova revolução – no governo e consequentemente no regime.

E se é certo que não há pessoas insubstituíveis ou providenciais, também é certo que no momento certo é preciso que haja quem aja da maneira certa. Ao reagir contra a ocupação do República, ao levantar-se contra as detenções arbitrárias de Otelo e Corvacho e ao desafiar Cunhal Mário Soares esteve, nos momentos decisivos, do lado da democracia liberal que muitos não queriam para Portugal. Esteve também, contra o seu partido, contra Eanes em 1980 e do lado da desmilitarização do estado em Portugal. E respeito que haja quem discuta as suas motivações nestes e noutros momentos, mas na verdade o que fica são as acções – é que de boas intenções está o inferno cheio (espero todavia que ainda tenha cabido o Comandante cubano). E acrescento um momento, que se calhar pequeno ao pé destes foi muito grande para o CDS: o segundo governo constitucional (e o segundo governo Mário Soares) contar com um partido que havia votado contra a Constituição pouco antes, serviu para o CDS mostrar não só nos discursos que estava de pedra e cal no regime constitucional saído do período revolucionário. O CDS discordava da Constituição – e a história dar-lhe-ia razão, a cada revisão constitucional – mas jogava o jogo com essa como livro de regras. Provou-o nesse governo graças também a Soares, o primeiro primeiro-ministro do CDS no governo.

Preferiria eu que o financiamento das primeiras campanhas presidenciais de Soares, bem como o destino dos restos desse dinheiro, tivesse sido mais transparente? Que o antigo Presidente não se portasse demasiadas vezes como dono disto tudo? Que não tivesse branqueado sempre que possível a acção de Sócrates? E que, lá está, tivesse comandado a descolonização de maneira diferente? Claro que sim. Mas a verdade é que poderia ter feito isso tudo bem que se tivesse falhado no essencial eu provavelmente não estaria cá para escrever essas palavras: o meu pai veio para Portugal em 77, era Soares primeiro-ministro e o Porto uma cidade que coleccionava alemães que ajudavam o país a crescer.

Com 92 anos Mário Soares estará muito fragilizado. Sou quem sou porque não o esteve quando contava.