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Expresso

Nuno Crato, a esquerda e Trump

Os resultados do PISA 2015 publicados esta semana pareceram notícias falsas, as chamadas “fake news”: afinal podia lá ser que Nuno Crato tivesse deixado o sistema educativo português com a maior subida de sempre na avaliação internacional em que Portugal estava no período 2009-2012 a estagnar senão a descer? Não podia, e a explicação surgiu.

É que uma coisa é clara para todos e todas ou para todas e todos ou lá como se diz à esquerda: Portugal de 2011 a 2015 teve um ministro da educação, Nuno Lúcifer Crato, cujo único objectivo foi destruir o sistema educativo e implantar coisas más como a pobreza, a ignorância e o neo-liberalismo em geral. Caso Portugal tenha tido um bom resultado nos testes PISA que avaliou os alunos que fizeram quatro anos de escola debaixo dessa tutela isso só pode dever-se ao facto de que até na implantação da maldade o ministro ter sido incompetente.

Como tal o ministro actual cedo tratou de desvalorizar: temos um problema com os chumbos. Fez bem. Se o actual resultado tivesse sido obtido por um governo de esquerda teríamos direito a foguetes, festa de lançamento de resultados com croquetes para a elite que pensa bem a educação em Portugal (a esquerda, leia-se) e o “mês de crescimento de bigodes em honra ao professor Mário Nogueira” na 5 de Outubro, sede do Ministério da Educação. Como os resultados foram obtidos no fim dum governo de direita, “temos um problema com os chumbos”. Percebe-se: o actual ministro em poucos meses reverteu tudo o que Crato deixara no ministério, sem se preocupar que o consulado anterior talvez não tivesse sido o Inferno descrito pelos spin-doctors socialista feitos Dante. Se o actual governo reverteu o sistema que produziu estes resultados, toca a desvalorizá-los.

Ontem, enfim, alguém teve uma tentativa de raciocínio que convenceu os socialistas: afinal estes alunos que foram quatro anos expostos à política do mafarrico Crato não tiveram nenhum exame nacional que Crato implementou nem viveram as metas curriculares em velocidade de cruzeiro nas suas aulas. E assim já se podiam celebrar os resultados do PISA: Crato afinal nada tinha que ver com eles. É um esforço bonito, mas inglório: os mesmos que agora renegavam três vezes Crato são exactamente os mesmos que durante quatro anos e meio andaram a explicar porque é que Crato era uma espécie de Exterminador Implacável feito “Predator” que todos os dias destruía com maldade a educação portuguesa para ter salas de aula sem condições, professores desmotivados e alunos sem aprender. Só o aumento de alunos por turma teria um efeito devastador nos alunos que estariam por isso a sofrer horrores dentro da escola.

Pode agora, retroactivamente, reduzir-se a acção de Crato a “fez exames e criou as metas”. Pode branquear-se a acção que antes se diabolizou. Pode tentar, de forma algo pateta, convencer-se alguém mais distraído que a introdução de exames nacionais só tem efeitos no sistema no dia em que os meninos os vão fazer: é o pensamento “só estudo de véspera” posto no papel, mas não aguenta dois segundos de raciocínio lógico. É preciso, para não perder a cara, transformar quatro anos e meio de ministro que antes era considerado um terrorista, a consulado de Rato Mickey? Pois então que seja. Mas perde-se a cara na mesma.

E este discurso dúplice consoante o spin que se quer dar (em 2012: CRATO DESTRÓI A ESCOLA TODOS OS DIAS; em 2016: CRATO NÃO FEZ NADA DE RELEVANTE) ajuda a promover os populistas e os populismos. Os Trumps e os Podemos desta vida crescem neste clima de podridão instalada em que os supostos partidos sérios tratam os cidadãos como acéfalos para atingir os seus objectivos. As pessoas não são parvas e não gostam de ser tratadas como parvas e abraçam facilmente quem aparenta respeitá-las mais que os políticos supostamente sérios dos partidos tradicionais. Mais a mais quando a agenda política no meio disto tudo faz dos alunos, professores e das famílias portuguesas (o conjunto dos responsáveis máximos pelos bons resultados) autênticos joguetes do jogo do reverte-corta-desfaz das medidas anteriores que - afinal - não só não destruíram como deixaram o sistema bom como nunca. Ou, lá está, afinal não: as medidas que agora se reverteram não fizeram nada aos alunos até 2015.

Depois quando virem os populismos ganhar eleições em Portugal, não se queixem. Porventura os mesmo que agora reescrevem a história fazê-lo-ão outra vez: Se um dia virmos um Donald Trump português a ganhar eleições a culpa será de Nuno Crato, o ministro que-fez-tudo-de-mal-ou-não-fez-nada-de-especial-consoante-a-narrativa.