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Expresso

Quem semeia ventos...

A vitória de Trump mexeu nos ânimos de muita gente - e a meu ver muitas reacções que por aí vejo só dão gás aos Trump desta vida

Estou à vontade, escrevi várias vezes antes da eleição que, se fosse americano, não votaria em Dangerous Donald. A mistura entre evidente ignorância, populismo e preconceito não me parece saudável num líder. E ultrapassando o conteúdo, a forma de comunicar do candidato era a de dividir e eu acho que os líderes devem unir. Além de que um dossier de política económica que parece copiado à pressa dum panfleto do Bloco de Esquerda já não me fascina cá, menos ainda para um país como os EUA.

Nos dias que correm convém fazer este ponto prévio: está muita gente estão hiper-sensível e qualquer tentativa de racionalizar o fenómeno Trump é afundada em insultos. E isso é o melhor combustível para Trump, Le Pen, Tsipras ou Iglésias: quanto menos se discutir a substância dos populismos e quanto mais se colarem rótulos que de tanto usados já nem significam nada, mais os populistas ganham. Porque chamar fascista a uma pessoa normal (que olha por si abaixo e pensa "bardamerda para o fascista") só leva a que essa pessoa fortaleça o laço com quem lhe dá colo quando vê confirmado que do outro lado só existe preconceito e a colagem de rótulos. Só se chama fascista, ladrão, homofóbico, misógino, etc, um determinado número de vezes a uma pessoa normal antes dessas palavras perderem significado. E francamente, nos últimos tempos, vejo estes rótulos serem usados gratuitamente a torto e a direito.

Há muita gente (tive o prazer de conhecer algumas esta semana no twitter por ter ousado dizer que o esquema mental de quem interrompe uma palestra numa Universidade para calar Relvas é o mesmo de quem quer ir à sede dum partido para calar Tavares, mesmo que os segundos fossem de varapau e os primeiro só de viva voz - é o mesmo pensamento subjacente: está ali um dos maus, tenho o direito de o ir calar porque ele é mau e eu tenho comigo a força do Bem nem que isso implique quebrar as mais essenciais liberdades) que acha que tem o monopólio da honestidade e que ideias contrárias são obrigatoriamente a encarnação do mal. Já escrevi uma vez sobre isso aqui, mas volto ao tema. É que este é o solo em que floresce o populismo. E este clima que empurra pessoas normais para votar num tipo que tem tudo para ser um perigo no poder. É que não encontram no campo das alternativas ninguém que as leve a sério.

Como recuperar essas pessoas? Um bom primeiro passo é deixar de colar rótulos e passar a discutir conteúdos. Um segundo passo é de debater sem duplas morais. Se Trump diz que quer deportar dois a três milhões de imigrantes ilegais com ficheiro criminal, se calhar quando se dá a notícia não se deve ignorar a parte do ilegais ou do cadastro. É que as pessoas hoje vão à fonte e revoltam-se ao verem o que percepcionam como uma conspiração da imprensa contra Trump. E também convém não ignorar a fasquia deixada por Obama: o presidente em funções deportou 2,5 milhões de imigrantes dos EUA, mais que qualquer outro - mais mesmo que Bill Clinton que num discurso do Estado da Nação teve um discurso que Trump decerto repetiria palavra por palavra.

Quem levanta o fantasma nazi contra Trump e mantém Obama ou Clintou num pedestal quando usaram exactamente as mesmas palavras ou fizeram exactamente o mesmo que Trump promete, está a contribuir para fortalecer Trump que pode contar com milhares de activistas nas redes sociais para mostrarem a verdade que os comentadores e jornalistas não quiseram passar. Aliás chamar nazi a Trump depois de se ter chamado nazi a Mitt Romney, a McCain, a Bush (aos dois) ou a Reagan, é usar um adjectivo que já não quer dizer nada. Para uma certa esquerda tudo o que se mexe é fascista e pelo caminho a palavra deixou de ter significado, já ninguém leva isso a sério. E pode bem ser que agora faça falta.

No fim de contas, em minha perspectiva, Trump não é tão problemático pelo que pode fazer mas pelo que pode não fazer. Os Estados Unidos são a democracia mais adulta dos nossos tempos e têm de saber enfrentar um populista no poder sem que isso signifique o apocalipse - se não o fazem então seria sempre apenas uma questão de tempo. O problema é que entre os que ouviam Trump e o interpretavam literalmente, os que o interpretavam figurativamente, os que votaram nele porque Crooked Hillary jamais, os que votaram nele porque querem ver tudo a arder ou os que votaram nele porque querem que trave o livre comércio, é difícil senão impossível contentar todos. Nesse sentido o pós-Trump pode ser pior que o próprio Trump. Quem irá culpar se a sua administração - dele, que não tem experiência governativa e a empresarial que tem não é famosa - não cumprir? Quem irão os americanos culpar? O discurso preconceituoso de Trump vai escalar ou vai desanuviar?

É que não tenhamos grandes dúvidas: um populista que promete mudar tudo e não cumpre deixa muita gente descontente. E com um tom mais civilizado mas com a campanha toda em volta de Change tivemos já Obama, que tantas esperanças alimentou. Cumpriu esse desígnio?

O pós-Obama é Trump, esperemos que não continue a resvalar.