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Trump

A vitória de Donald Trump era, apesar de tudo, menos improvável que muitos quiseram fazer parecer. E era certamente menos improvável do que a imprensa transmitiu nestes últimos meses. Miguel Esteves Cardoso escreveu, e muito bem: “Aquilo que aconteceu não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária a favor de Hillary Clinton onde até revistas apolíticas como a Variety participaram.” Citando a nossa música popular: “afinal havia outra”.

Trump, convenhamos, era tudo menos um candidato agradável. Truculento na conversa, demonstra traços de ignorância nos mais vastos assuntos e uma tendência para o preconceito contra vários grupos. O que sempre me espantou, no entanto, foi como se passava por cima da péssima bagagem de Hillary Clinton: um desastre à frente da diplomacia norte-americana, ligações financeiras muito duvidosas com regimes totalitários além do cinismo de suportar no marido aquilo de que acusava o opositor no que diz respeito ao tratamento das mulheres.

O que terá feito mais diferença para o eleitorado, no entanto, era a imagem de genuinidade que Trump apresentava. Trump mostrou-se como o homem de fora do establishment que falava a linguagem do povo e que se preocupava com os problemas do povo em vez de trabalhar para interesses obscuros. E o dados demográficos são simpáticos para Trump: mesmo nas minorias hispânicas e negras teve maior penetração do que o anterior candidato republicano, Mitt Romney. Pouco interessavam as ideias ou os projectos do candidato - e da candidata, que se passeou pelos debates sem que eu conseguisse fixar uma ideia para o mandato que pretendia receber. O que contou foram as emoções que os candidatos transmitiram. E o facto de a imprensa ter tratado Trump e seus apoiantes com desdém e não com a imparcialidade que se impunha, pode ter ajudado a motivar o voto no novo Presidente. Ninguém gosta de ver os media a fazer escolhas pelos eleitores nem de ser tratado como inimputável. Lá estariam as emoções, novamente.

Não convém também esquecer que Barack Obama não fica bem na fotografia. A imagem do país muito melhor que há oito anos graças ao Presidente do Change não bate certo com uma votação massiva num candidato como Trump. Ou por outra, bate no sentido que as pessoas queriam mesmo a mudança que Obama não corporizou.

Chegados aqui há que recordar que os Estados Unidos são uma democracia desde 1776 e que têm um sistema de governo limitado pela Rule of Law. Será interessante ver esse sistema funcionar com um Presidente sem qualquer experiência política. Para nós, portugueses, as áreas mais importantes serão as Relações Internacionais, a Defesa e o Comércio – em particular este onde Trump tem mostrado oposição aos tratados de livre comércio, oposição que partilha com a extrema-esquerda nacional e que indicia um caminho proteccionista, desastroso para o desenvolvimento económico mundial.