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Expresso

Reformar o Capitalismo - Venezuela style

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As palavras de Mariana Mortágua, indicando de que a esquerda (ainda) “tem que perder a vergonha” para fazer o que tem de ser feito (que é atacar as poupanças), criaram alguma confusão e deixaram muita gente com a pulga atrás da orelha. Eu por exemplo fiquei espantado por saber que o atual nível de impostos é aquele a que temos direito com a esquerda ainda envergonhada. Fiquei mesmo preocupado com o que pode aí vir. Mas é sobretudo a visão de que o problema das economias é haver quem consiga poupar que demonstra uma profunda ignorância no campo da ciência económica.

Para o Bloco, a solução para a pobreza e para as desigualdades é muito simples: estamos perante um problema de redistribuição da riqueza. É o estafado: existem pobres porque existem ricos. Há quem ache que se deve ir por aqui. Eu discordo. Ou melhor: a redistribuição é necessária, mas não chega. É uma fantasia achar que se resolve o problema da pobreza e das desigualdades criando um escalão de 45% de IRS e um imposto sobre as grandes fortunas. Os nossos problemas também não se resolvem nacionalizando a banca, os seguros e o sector energético — e muitos menos se resolvem introduzindo mecanismos de controlo administrativo e burocrático dos juros.

Na verdade sem existir acumulação de riqueza – poupança – podemos ter a certeza de que também não existe investimento. É que para investir é preciso que haja capital – poupança acumulada. Num exemplo muito simples: se não houver quem acumule 10.000€ e os empreste a um empresário, aquela máquina que custa 10.000€ e que permite poupar horas de trabalho no processo produtivo nunca vai ser comprada. Mas é esse investimento que permite gerar poupanças de recursos ou ganhos de produtividade e com isso permite criar riqueza. Os preços baixam, mais dinheiro pode circular na economia (encontrando outros locais onde ser consumido ou sendo poupado para outros investimentos): o crescimento económico aparece.

Um dos maiores problemas do BE consiste na ausência de uma política que assegure um crescimento económico que garanta o a sustentabilidade do estado social. Para o Bloco, solidariedade não requer competitividade e crescimento económico. Por outras palavras: a solução para todos os nossos problemas não tem de ser construída, isto é, não depende da criação de um contexto que económico que ainda não existe. Os nossos problemas resolvem-se a partir dos recursos atualmente existentes, redistribuindo-os. Mas alguém acredita que as medidas propostas pelo Bloco garantam os crescimento económico que financie as políticas sociais que a esquerda bloquista deseja? Qual a taxa de crescimento necessária para pagar o estado social defendido pelo Bloco sem que o défice se torne insustentável? O BE, infelizmente, ignorou estas contas.

Pior: ao demonizar a poupança e o investimento (ao mesmo tempo que quer resolver tudo com mais dívida externa com o tal défice insustentável) o Bloco está a condenar os nossos filhos a um pior futuro. Nós construímos a economia de hoje numa base do investimento passado – ou seja da tal malfada acumulação de riqueza passada. Foi porque alguém poupou uma parte substancial dos seus rendimentos para desenvolver máquinas de fiar em Inglaterra e na Alemanha do século XIX que hoje em dia a roupa que vestimos está acessível a todos os bolsos e não é uma coisa de ricos como era antes da Revolução Industrial. Sem saber que nos estava a ajudar, há todo um fio de investidores que antes foram poupadores ou que pediram emprestado a poupadores que se estende pela história da humanidade e cuja herança nós hoje aproveitámos de graça e graças ao mecanismo do acumular de riqueza. Ao querer trocar investimento por dívida o Bloco quer também ajudar a perpetuar a pobreza e as desigualdades. E temo bem que baste falar nisso. É que Portugal é ainda por cima um país com pouquíssimo capital acumulado dentro de fronteiras. Dependemos do estrangeiro para nos trazer o capital de que precisamos para nos tornar menos pobres e mais ricos. Isso implica não termos uma sanha persecutória aos ricos, como acima se escreveu, inventando impostos sobre as fortunas ou taxas pornográficas de IRS. Implica a meu ver também que não se troquem as temporárias sobretaxas do anterior governo (criadas após importantes decisões do tribunal Constitucional e com as contas do país falidas) por permanentes aumentos nos impostos indiretos como se fez já nos combustíveis e como o ministro Centeno anunciou para o próximo orçamento.

Os países não têm pobres por terem muitos ricos. A Venezuela está no charco por causa dessa ideia e a única coisa que tem feito é destruir riqueza - criando mais e mais e mais pobres. É ao contrário: só criando mais riqueza (e portanto mais ricos) é que os países crescem e tiram pessoas da miséria. Nada do que aqui escrevi é excêntrico ou "de direita" e é estranho que ainda não tenha chegado a quem no Bloco pense (?) Economia. Aliás nem tudo aqui escrito é da minha autoria: copiei o segundo e quarto parágrafos (onde as propostas do Bloco são bem contestadas) dum texto de 2009. O autor é um tal de João Galamba (encontrei o texto no twitter). Pergunto-me onde andará hoje: poderia ajudar o Bloco com Iniciação à Economia ou explicar ao primeiro-ministro que com gente desta a querer "reformar o capitalismo" o país não sai da cepa torta.