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Expresso

Brexit (2)

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Quando escrevi sobre o referendo britânico na semana passada não estava à espera que o Brexit ganhasse. Estou, nesse campo, bem acompanhado, mas esperava um pouco mais de bom senso dos líderes europeus.

A opção de David Cameron de referendar a permanência do Reino Unido na União Europeia foi certamente uma opção com riscos mas, acredito, supostamente calculados na perceção dos responsáveis de Downing Street. Mal calculados, claro, mas depois do caldo entornado é fácil encontrar os defeitos na estratégia. Ainda assim vale a pena refletir sobre se uma decisão desta magnitude deve poder ser referendada ou se deve ser colocada apenas nas mãos dos representantes do povo que, numa democracia representativa, se consideram os mais bem preparados para lidar com questões desta complexidade. É minha opinião que uma questão de soberania em que um estado abdica de poder de decisão em tantas e cada vez mais matérias é referendável. A participação na União Europeia limita o poder dos eleitos nos estados-membros duma forma tão decisiva que faz sentido os eleitores pronunciarem-se sobre ela. Porventura há questões sobre uma taxa de participação mínima ou um resultado mais claro que metade mais um voto (ainda que o Leave tenha tido bem mais que um milhão de votos de avanço face ao Remain, em 33 milhões de votos expressos, para uma taxa de participação de 72%) que se podem colocar, mas referendar a ligação dos cidadãos com o poder político pode e deve ser possível.

Escrito isto, vale a pena uma nota para o comportamento de David Cameron e Jeffrey Corbyn no pós-referendo.

Cameron demitiu-se cumprindo o que sempre disse – e face à sua posição frente ao resultado outra coisa seria estranha – deixando a liderança do governo e do Partido Conservador. Note-se também que foi do Partido Conservador que saíram, ao contrário da perceção criada pelo UKIP, os mais sólidos argumentos e os coordenadores da plataforma oficial pelo Leave – derrotando aliás a plataforma do UKIP nesse propósito. Cameron teve de aceitar que o Partido Conservador não tivesse posição oficial ainda que o governo tivesse enviado propaganda a favor do Remain para todos os lares.

Já Corbyn que supostamente liderava um partido com posição oficial e estabelecida pelo Remain, optou por praticamente não fazer campanha havendo mesmo quem pense que votou Leave, o que seria compatível com posições assumidas no passado nomeadamente em votações no Parlamento inglês. Enfrenta agora uma revolução interna que promete abalar os Trabalhistas, onde muita gente pensa que Corbyn não é capaz de liderar uma campanha vitoriosa. Lá está, depende do que o próprio considera uma vitória.

Juntando-se a estes factos o de a Escócia ter votado claramente a favor de permanecer na UE, havendo já ameaças de repetição do referendo independentista escocês, os próximos meses no Reino Unido prometem.

Mas a meu ver muito mal têm estado as instituições europeias. Com o cada vez mais inconveniente Juncker à frente, a Europa tem reagido como uma mistura de namorada despeitada e criança mimada. Aquilo que se exige é calma e cabeça fria. É evidente que um pedido de saída dum estado-membro não é uma situação simpática mas a UE deveria procurar perceber melhor o que é que leva cidadãos europeus a tomar esta decisão em vez de aparecer cheia de pressa que o governo britânico evoque o artigo 50º do Tratado de Lisboa para formalizar o pedido de saída. Essa decisão é uma decisão soberana e cabe ao governo de Downing Street. A Europa pressionando Cameron e pior, namorando com a Escócia como parece estar a acontecer, só dá gás a movimentos idênticos doutros países. Ao mesmo tempo ao não perceber que o benefício de boas relações com o Reino Unido, ainda que com este fora da União, é mútuo, parece mostrar uma visão do mundo tão absurda quanto infantil. Querer que o Reino Unido fique de fora de todas as parcerias de que gozam aliás outros países que nunca estiveram nem quiseram estar na União é um disparate. E se calhar prejudica mais a UE do que o Reino Unido.