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Expresso

Somos todos gays

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O ataque de Orlando, Florida, na passada semana voltou a recordar-nos quão próxima às vezes está a guerra. Uma guerra diferente, é verdade. Mas como infelizmente soubemos, mortífera - as vítimas do crime testemunham tragicamente isso.

É preciso perceber o porquê dum crime destes? Importa destrinçar, com a informação possível, a motivação deste assassino? Acho que sim. Acho que sim porque Omar Mateen não era um assassino que agiu do nada. As suas motivações interessam porque agiu dentro dum modus operandi infelizmente já comum e não isolado. Interessam porque se temos um inimigo (ou, pelo menos, se somos inimigo de alguém) devemos perceber o que o motiva, o que o faz agir. E do que sabemos, deste e doutros ataques, é redutor considerar que se trata de “crimes de ódio”.

Não é que não tenha estado ódio envolvido, certamente que sim. Mas o atirador era motivado por muito mais que por ódio a gays ou a hispânicos. Como já temos visto, de forma particularmente incisiva desde o 11 de Setembro, a motivação destes crimes é o fanatismo, religioso, contra quem age de maneira diferente, pensa de maneira diferente, ou acredita em algo diferente do que os ungidos pela mundividência pregada pelos islamitas radicais. E se queremos compreender o que move assassinos como Mateen, então não nos enganemos: eles matam porque acreditam que o paraíso abre as portas a quem cumpre as palavras que alguém escreveu há 1400 anos. E contra isso há muito pouco a fazer.

A civilização judaico-cristã ultrapassou há muito as interpretações literais dos seus textos sagrados. Israel, p.ex., é dos países do mundo onde os homossexuais vivem melhor e tirando alguns maluquinhos ninguém se incomoda que a Torah (Lev. 20:13) seja bastante dura com homens que se deitam com homens. Aliás, acredito que uma parte significativa do mundo islâmico também não viva já na sua própria Idade Média. Mas pessoas como Mateen vivem. E reduzir o terrorismo de quem quer assassinar, aceitando a sua morte no processo, todos os que não creem numa determinada versão de Allah e do profeta a “homofobia” é redutor e é perigoso.

É que no Bataclan não estavam só gays. No Charlie Hebdo não escreviam só gays. Nas Torres Gémeas, nos metros de Londres e Madrid e nas milhares de famílias destruídas na guerra da Síria ou na Nigéria não é só de gays que estamos a falar. A jihad destes radicais é contra todos nós. Que tenha desta vez acertado um centro da comunidade gay de Orlando é trágico por si só e de forma particular para quem sente proximidade com essa comunidade. Mas há uma escola de terrorismo que anda atrás de todos nós e dos nossos filhos porque pensamos de forma diferente. Não nos enganemos.