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Expresso

Dar-se ao respeito

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Disse-o ano passado quando discursei em nome da bancada parlamentar do CDS nas comemorações do 25 de Abril e renovo-o hoje: dispenso bem um certo paternalismo em relação ao 25 de Abril. Aquela frase - “não foi para isto que fizemos o 25 de Abril” - é todo um programa e é muito mais que uma caricatura. É real e sentida por alguns sectores do ex-MFA. Encerra, como escreveu Nuno Saraiva, uma certa ameaça. Mas se não quisermos ir tão longe há pelo menos um sentimento inequívoco: a revolução tem donos e esses donos ainda reclamam a sua propriedade.

Ora as revoluções não são assim. O golpe que depôs o governo marcelista teve, felizmente, quem o tornasse real (obrigado!) mas se depois virou revolução – e é dela por inteiro que falamos a maior parte das vezes que falamos em “25 de Abril” - então é porque foi mais do que a ação de alguns militares. Foi porque as pessoas vieram para a rua, às vezes menos pacificamente que outras, e porque quiseram tomar as rédeas do poder e porque não quiseram justamente deixar as coisas nas mãos do MFA.

É por isso que a figura de Salgueiro Maia sempre me inspirou muito mais admiração que a de alguns passeadores-de-medalhas. O homem que enfrentou de pé as metralhadoras do regime chegou ao fim do dia e voltou para o quartel. Por intuição ou por formação sabia onde deviam estar os militares e agiu em consonância. Outros usam a suposta cátedra para condicionar governos ou escolher muito democraticamente quando vão ou não vão acompanhar as celebrações no Parlamento eleito na Democracia cujos valores dizem representar. Pior ainda, quando vão, fazem-se representar por um terrorista condenado, responsável por uma organização que assassinou 13 pessoas entre as quais um bebé de quatro meses. Talvez fosse fascista e a coisa tivesse desculpa, não sei, mas sei que fizeram bem os deputados que na passada Segunda-Feira não aplaudiram o senhor na tribuna do Parlamento. Os Capitães de Abril que têm tudo para merecer respeito e até admiração, assim, não se dão ao respeito. Deram-se os deputados.

E por falar em respeito, António Costa parece ter perdido o que lhe restava em respeito próprio. É que, depois de ter legitimamente ter insistido procurar a nomeação como primeiro-ministro apesar de ter perdido as eleições, estamos à beira de o ver também o primeiro primeiro-ministro que não tem consigo uma maioria suficiente para apoiar um programa tão fundamental que levou Sócrates a demitir-se quando lho chumbaram. E a pergunta é a seguinte: um governo que produz um documento em que inscreveu o rumo para as contas públicas – coisa pouca – nos próximos quatro anos pode ter medo de o levar a votos? Pode um governo ter medo do Parlamento? Pode um primeiro-ministro fugir do Parlamento?

Com jeitinho alguém dirá que não foi para isto que fez o 25 de Abril.