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Expresso

"Se todos pagassem os seus impostos" ou "A história da Carochinha"

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A fuga de informação do Panamá enche jornais e revistas mas há alguns mal-entendidos. Por exemplo a (propositada?) confusão entre traficantes de armas e trabalhadores honestos, como Messi ou Almodôvar. Aliás, deriva esta doutra confusão entre lavagem de dinheiro e planeamento fiscal.

Acontece que enquanto houver países com menos impostos sobre, por exemplo, juros bancários, haverá sempre quem lá prefira colocar o seu dinheiro do que num banco em casa. E bem. O dinheiro é do povo não é de Moscovo – que é como dizer que o dinheiro (suado, merecido, conquistado) é das pessoas, não é do estado. Eu preferiria sempre viver num paraíso fiscal do que neste inferno que tira aos indivíduos bem mais de metade do que alguém decidiu pagar por um trabalho honesto. E a confusão entre quem organiza as suas poupanças ou a estrutura da sua empresa de maneira a minimizar o esbulho do estado (o do presente e o do passado que nos assombra a cobrar hoje o que gastou há anos, quando muito contribuinte nem votar podia, e quem no legou em dívida - obrigadinho por nada!) e entre quem pratica actividades criminosas é uma confusão que não honra o jornalismo nem ajuda a combater o que há a combater.

Mas o argumento mais engraçado que ouço neste debate é o de que “se todos pagassem os seus impostos, todos pagavam menos”. Pergunto-me se quem usa este argumento é só inocente ou o faz de má-fé. Mas já lá vamos. Porque importa repetir que muitos dos casos de que se fala são casos não só legais como, a meu ver, legítimos e até benéficos. Qualquer emprego que se crie ou mantenha porque uma empresa encontra numa determinada estrutura empresarial um regime fiscal mais benéfico é um emprego criado apesar do estado e beneficia toda a sociedade. Ganham todos.

Mas de facto o argumento tem graça de tão evidentemente falso que é. Num país que acumula défices crónicos desde que há memória e cuja carga fiscal é implacável – voltando aliás a crescer agora que se “virou a página da austeridade” - lembro-me rapidamente de muito melhores utilizações do dinheiro dos nossos impostos do que baixar a carga fiscal:


Se todos pagassem os seus impostos o PS podia pôr o IVA da restauração a 6%.

Se todos pagassem os seus impostos podíamos aumentar ainda mais as reformas milionárias este ano.

Se todos pagassem os seus impostos não só tínhamos 100% da TAP, como nacionalizávamos a operação local da Lufthansa.

Se todos pagassem os seus impostos a Segurança Social reconstruía o Convento do Carmo.

Se todos pagassem os seus impostos fechavam os estaleiros de Viana porque os de Caminha, Cerveira e Moledo levavam toda a mão-de-obra do Noroeste peninsular.

Se todos pagassem os seus impostos a Odebrecht pagava luvas até acabarem os quadros comunitários.

Se todos pagassem os seus impostos Lacerda Machado podia ser ministro e continuar a ganhar nos negócios.

Se todos pagassem os seus impostos a Fundação Mário Soares tinha um hospital e não havia emigração de enfermeiros.

Se todos pagassem os seus impostos poderíamos alargar ainda mais o fosso nos horários de trabalho entre público e privado.

Se todos pagassem os seus impostos, o Porto não era a cidade com mais pontes ex-aequo com Gaia.

Se todos pagassem os seus impostos Lisboa tinha mais dois aeroportos. Portela +2, quem em boa consciência poderia ser contra?

Se todos pagassem os seus impostos podíamos encher, ainda mais!, os bolsos à SPA com a lei da leitura privada.

Se todos pagassem os seus impostos a CP conseguia ter manicure e pedicure para os funcionários.

Se todos pagassem os seus impostos podíamos pagar aos táxis para nem trabalhar nem estragar a a vida a quem quer.

Se todos pagassem os seus impostos conseguíamos mais uma auto-estrada Porto-Lisboa. O que traria crescimento para financiar ainda outra!

Se todos pagassem os seus impostos podíamos ter candeeiros Siza mesmo em escolas mais longe de Lisboa.

Se todos pagassem os seus impostos as poupanças do anterior governo com as PPP podiam ser revertidas pelo actual.

Se todos pagassem os seus impostos há uma certeza que tenho: no ano seguinte havia défice outra vez.