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Expresso

O problema com Cavaco

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Cavaco Silva, que ontem deixou o cargo de Presidente da República e, supõe-se, a carreira política, é o mais bem-sucedido político português. Ganhou eleições como ninguém, governou com maiorias absolutas como nenhum outro e foi, sobretudo nos últimos dez anos, garante da estabilidade cumprindo escrupulosamente o papel que o regime acomete ao Presidente da República. Como pequeníssimo pormenor, anoto ainda que vetou politicamente a lei da Cópia Privada a que eu também me tinha oposto no Parlamento votando contra a indicação da minha bancada e do governo que apoiava.

Note-se que esta avaliação é relativamente objetiva e não depende de grandes perceções pessoais. Já o mesmo não se pode dizer de reações aqui e ali sobre o fim do mandato de Cavaco Silva, conforme se pôde ler nos jornais, nas redes sociais e ver mesmo estampado na cara de muitos jornalistas televisivos: o adeus a Cavaco provocou alívio e satisfação em muito boa gente.

Cavaco, diga-se, teve vários momentos da sua carreira em que não acho que tenha estado especialmente bem - particularmente quando olhado com os olhos de hoje. A forma como o país se desenvolveu nos tempos em que foi primeiro-ministro, a forma como “investiu” os fundos europeus e como não aproveitou a oportunidade para reformar as instituições e a burocracia nacionais herdadas dos corporativismos do Estado Novo e do PREC ficará sempre na história como o primeiro passo para a década perdida de 2000-2010. Por outro lado, vendo quem se lhe opunha como Constâncio ou Sampaio, não ficam grandes certezas sobre a vantagem das alternativas.

Mas, tendo aprendido com isso ou tendo simplesmente mudado a sua abordagem no novo cargo, Cavaco distinguiu-se como Presidente da República. Sem intrigas de bastidores ou golpes abertos como os seus antecessores, soube manifestar a sua preocupação com o caminho em que o PS de Sócrates levava o país para o descalabro da bancarrota, exercendo a verdadeira magistratura de influência. O tempo deu-lhe, claro e infelizmente, razão.

E se irritou muita gente com o não envio para Tribunal Constitucional de diplomas que depois se verificariam inconstitucionais, a verdade é que a sua visão da CRP nunca deixou de encontrar eco em vários votos vencidos de juízes constitucionais, sem que isso, claro, alguma vez fizesse duvidar os ferozes críticos - os mesmos que teriam deixado Sócrates alegremente a governar e exigiam que demitisse Passos Coelho.

É que o problema com Cavaco não é político. O problema é que Cavaco, aos olhos de muito boa gente, é parolo. E valha-nos Afonso Costa e Mário Soares, mas não foi para ver um parolo em Belém que se fez a República.

Cavaco come bolo-rei de boca aberta, usa meias brancas, engana-se no plural de “cidadão” e fechou uma marquise numa varanda. Caramba, nem sequer é maçom! Como poderia ser bom Presidente?

O antigo Presidente é assim a grande contradição da República. Num regime que se vende como aquele em que todos podem chegar a chefe de estado, caem o Carmo e a Trindade quando de facto alguém que não nasceu em berço de ouro o faz. Cavaco, filho de gasolineiro, do Algarve profundo, que fez a escola em Faro e a veio terminar a Lisboa, o bolseiro da Gulbenkian que se doutorou em Inglaterra, Cavaco que como tantos outros portugueses mostrou que é possível subir na vida e não se ficar preso às suas circunstâncias será sempre, para tanta boa gente, “Cavaco o parolo”. E convenhamos, mas os parolos são bons é para ficarem assim mais longe que não os queremos esfregados na nossa cara dia-sim, dia-sim.

Portugal dificilmente encontraria um Presidente mais português do que Cavaco Silva. Talvez por isso as elites o tolerassem tão pouco. É que uma coisa é falar dos portugueses, apelar aos portugueses e ser a vanguarda dos portugueses. Outra coisa é vê-los a tomar as rédeas e chegar mesmo, republicanamente, ao poder. Aí “arrebenta a bolha” e acaba-se a brincadeira.

Tenho para mim que Cavaco foi “Cavaco o desmancha-prazeres”. Obrigou a República a deixar de ser dos ungidos pelos aventais de Lisboa. E a mim, deu-me muito prazer ver a irritação que provocou, em muito boa gente, um homem de origens humildes no poder. Nesse sentido, obrigado.